
Joaquim Moreira da Silva nasceu há 140 anos. O “Poeta Carpinteiro” é uma figura singular da poesia e da cultura popular portuguesa que a Câmara Municipal de Vila do Conde e a União das Freguesias de Vilar e Mosteiró pretendem assinalar e promover ao longo de 2026, um vasto programa cultural, educativo e comunitário com o objectivo de dar a conhecer e valorizar o legado poético deste libertário e anarquista natural de Vilar.
A surpreendente actualidade da sua obra poética continua hoje a fascinar e a inspirar leitores. Parte significativa dessa produção está reunida na antologia A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia (Opera Omnia, 2024).
A Biblioteca Municipal José Régio inaugurou, no dia 14 de Março, a mostra “Joaquim Moreira da Silva: Exposição Biobibliográfica”, que todos podem visitar até 21 de Abril. A esta iniciativa juntou-se a historiadora Raquel Varela, com a comunicação “Portugal no final do século XIX e início do século XX”, e o investigador Maciel Santos, que abordou “A contra cultura operária em Portugal (1879-1934) num contexto da obra de Joaquim Moreira da Silva. A sessão foi moderada por Marta Miranda, directora da Biblioteca Municipal.
“Como historiadora, como cidadã deste país e também o coração sindicalista revolucionário, hoje ficou mais quente por estar próxima deste nosso querido pedagogo, poeta, um resistente”, começou por dizer Raquel Varela, acrescentando que, “aquele homem com letra maiúscula, a humanidade que não estava sujeita à lógica do lucro, a ser parcelada, alienada numa lógica sujeita à acumulação de capital e ao lucro, mas uma humanidade que se desenvolvia em todas as suas potencialidades”.
Joaquim Moreira da Silva é um poeta que “se vai alfabetizar muito tarde, dedicar-se à pedagogia, pensar sobre a sua própria poesia, ele não é só um poeta, ele pensa sobre a sua própria poesia, ele edita a sua poesia, ele educa, ele cria os seus materiais pedagógicos. Tudo isto é, para quem conhece, e muitos de vocês aqui conhecem, a história do movimento operário, do socialismo do século XIX absolutamente normal, infelizmente hoje é muito estranho. Aliás, nós vivemos neste processo muito infantil da democracia liberal representativa, em que os trabalhadores são chamados a votar de 4 em 4 anos porque alguém vai falar por eles”.
A historiadora explica que “no século XIX era algo adquirido para todos os movimentos igualitaristas, socialistas, anarquistas, que os trabalhadores tinham que ter a sua própria voz. A sua própria voz era expressa, nomeadamente, em nada mais, nada menos, do que mais de mil jornais que o movimento operário português teve, entre mais ou menos 1870 e 1930. A Batalha, que é um jornal sindicalista revolucionário, chega a ter em 1919, 25 mil exemplares por dia de tiragem. E Lisboa, no início do século XX, tem mais escolas do movimento operário, anarquista e sindicalista do que escolas públicas. Aliás, a educação chegou aos operários, não pelas mãos da burguesia, que os queria operários. É espantoso como hoje estes sectores que defendem a inteligência, os modelos massivos de linguagem generativa nas escolas, estão sistematicamente a dizer aos professores do ensino secundário e do ensino superior que o problema não é o Chat GPT, é que nós não ensinamos os nossos alunos a usar bem e a operar o Chat GPT, a operarem o Gemini ou outra coisa qualquer cuja função, além de expropriar o conhecimento, é a completa barbárie que nós somos obrigados a viver todos os dias com os Estados Unidos à cabeça. Mas, não é só bombardearem escolas de países inteiros, destruírem cidades inteiras, é que tudo isto nos é oferecido nos jornais normais como se fosse fogo-de-artifício. Nós só vemos umas coisinhas brilhantes, uns prédios a implodir e depois umas notícias isentas a justificar a completa barbárie do sistema capitalista que nos trouxe aqui e cuja função primordial é destruir o homem e a natureza. É isso que nós estamos a viver. Foi contra isto que no século XIX os movimentos igualitaristas se ergueram”. E acrescenta que, “foram milhares em Portugal, milhares em Espanha, em Itália, milhares no sul de França e milhares nos Estados Unidos, todos aqueles países onde o sindicalismo revolucionário foi mais pujante e na América Latina. E é muito curioso que onde quer que se encontre um anarquista, um sindicalista revolucionário, é muito difícil que ele não seja simultaneamente um operário, manual, um intelectual, um pensador, um pedagogo, um professor, um artista, ou seja, é muito difícil que ele não seja tudo. E esse desígnio que nós temos ali, expresso numa ironia fina de um dos poemas que eu gosto de ter escrito de cor, que é, há muitas filosofias no mundo, até há as catastrofistas, nós vivemos tempos de filosofias catastrofistas”.
As celebrações dos 140 anos de nascimento do “Poeta Carpinteiro” prolongam-se pelo ano de 2026, com exposições, espetáculos, performances educativas, tertúlias e a estreia do filme “O Carpinteiro da Palavra”, de Jaime Neves, prevista para dezembro.
Joaquim Moreira da Silva será sempre uma memória cultural que perdura entre a literatura popular e a identidade local.
Por: José Peixoto