Voz da Póvoa
 
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O Construtor do Futuro da Misericórdia de Vila do Conde

O Construtor do Futuro da Misericórdia de Vila do Conde

Vila do Conde | 26 Fevereiro 2021

Crescemos para o mundo do entendimento, mas quantas vezes nos custa a entender as diferenças económicas e sociais entre filhos do mesmo Deus. Como perceber o olhar de gente madura, que antes de nós construiu o caminho da nossa existência. Será sempre bom lembrar a muitos filhos doutores, os pais analfabetos que trabalharam para a sua formação.

 Arlindo de Azevedo Maia nasceu às sete da tarde, no dia 9 de Setembro de 1930, na freguesia de Modivas, Vila do Conde. Diz, ter sido um estudante aplicado o suficiente para passar com notas dos 12 aos 14 valores. Só a matemática é que elevava o ego para os 18 valores ou mais. O certo, é que se formou em Engenheiro Civil e de Minas. “Até me formar, entre outras profissões, fui cabouqueiro e cimenteiro. Com 21 anos e o curso concluído, comecei a trabalhar nas Minas da Ribeira, na freguesia de Coelhoso, em Bragança. Estive lá um ano e depois fui 18 meses para a tropa. Como estudante, ainda adolescente, decidi ir para as carteiras da frente, porque não gostava de estudar em casa e bastava-me estar atento ao professor para fazer testes razoáveis”.

Ergueu-se pelo trabalho e cedo começou a saber gerir o seu dinheiro e a indignar-se com a pobreza: “Com 13 anos comecei a trabalhar, nas férias da escola, com o meu avô e ele pagou-me o ordenado de encarregado. Um dia, fomos para à festa da Senhora das Dores e naquela altura, dava-se um tostão de esmola a um pobre. Eu achava uma oferta miserável e disse ao meu avô que um tostão não era dinheiro. Dito isto, meto a mão ao bolso e dei uma nota de 20{TEXTO_NOTICIA} a um pobre aleijadinho, era assim que se dizia. O meu avô passou o dia a dar-me cabo do juízo por ter dado aquela nota. Na verdade, fazia-me muita confusão tanta gente a pedir. A vida, a mim, correu-me sempre bem. Quando aconteceu o 25 de Abril, naqueles tempos revolucionários, muita gente saiu com o dinheiro do país, eu pelo contrário, investi na construção civil e em propriedades. Deixei-me levar pela minha intuição. Eu tinha uma empresa de Construção, que mais tarde transformei em imobiliária. Cheguei a ter no Mindelo, nos areais, à volta de 700 mil metros quadrados. Comecei a comprar, comprar e depois vendi. A vida não foi madrasta comigo, mas corri muitos riscos. Quando cheguei aos 50 anos, passava-me pela cabeça a criação de uma Fundação. Sensibilizavam-me muito os pobres, achava e acho uma vida indigna, as pessoas andarem a mendigar, é uma desumanidade”.

Arlindo Maia, em 1989, foi candidato à Câmara Municipal de Vila do Conde pelo PSD: “Insistiram comigo, o grupo do PSD. Não estou inscrito em nenhum partido, mas tenho as minhas opções, que andam muito dentro das políticas do PSD. É um meio-termo que penso ser fundamental para a governação. Admirei a forma como o Sá Carneiro fez passar as suas ideias com clareza ou o Amaro da Costa, um indivíduo que deu muita esperança. Foi com essas ideias que convivi. Na altura, apesar das indicações serem muito boas, não foi possível vencer as autárquicas. Estive durante 4 anos como vereador, queria ver como as coisas se faziam em política, como se gere um concelho. Uma tristeza sem par. Percebi que os políticos são uns fingidores, dizem uma coisa e fazem outra e, mentem com muita convicção. São homens com uma arte própria e eu nunca conseguiria chegar lá. O curioso é que aquilo que faziam estava dentro da lei. O que a lei não prevê é a desonestidade das pessoas. A lei permite uns descuidos e quando as pessoas são malandras e estão preparadas para a malandrice, não há nada dentro da lei que as trave. Veja o que se passa nos tribunais, até os juízes, em alguns casos, são desonestos ou convencidos pela sua razão”.

O Provedor Que Democratizou a sua Eleição

Chegar a Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde, uma instituição fundada em 1510, nunca lhe tinha passado pela cabeça, mas a insistência de amigos pessoais fizeram Arlindo Maia mudar de ideias: “Era amigo pessoal do Vice-provedor José Moreira Maia, um advogado distinto e também do Sousa Pereira, que foi, para mim, um bom Provedor da Misericórdia até ao 25 de Abril, de 1974. Depois, a Revolução mudou a cabeça a muita gente. Em 1975, o Estado assumiu o Hospital e a Misericórdia fica sem actividade, porque era através da cozinha do Hospital que fazia algumas benemerências. O Sousa Pereira meteu-se na política, no PS, e as outras pessoas da direcção começaram a deixar de aparecer. Muitos dos irmãos da Santa Casa afastaram-se e começou a constar-se que a Câmara ia tomar conta da Misericórdia”.

E acrescenta: “Um dia, a dois meses das eleições de 1983, o José Moreira Maia procurou-me no sentido de encabeçar uma lista para Provedor, ainda em ciclos de três anos, agora são quatro, mas a minha primeira reacção foi não. Os políticos na altura estavam todos “assanhados contra” o Arlindo Maia e entre a Misericórdia e a Autarquia tem que haver colaboração. Daí, ter pensado não ser a pessoa indicada para o cargo de Provedor, mas ele insistiu e sensibilizou-me. Eu era benemérito e irmão da Misericórdia, mas não estava integrado, nem sabia como funcionava. Aceitei o desafio, mas impus as minhas condições. Primeiro ter uma conversa com o Presidente da União das Misericórdias Portuguesas, criada em 1976. Outra das condições era escolher toda a equipa formada por pessoas da minha confiança, desde a direcção, ao presidente da Assembleia Geral ou do Conselho Fiscal. A outra exigência foi mexer nos estatutos, porque as mulheres não podiam votar nem ser eleitas e eu discordava. Todas as pessoas que convidei, aceitaram e ficaram entusiasmadas. Um dos elementos que esteve desde o início comigo foi o Dr.º Delfim Maia, na altura com 27 anos. Neste momento, é presidente da Assembleia Geral. Todas as pessoas que entraram comigo, a 11 de Janeiro de 1984, formaram uma equipa de trabalho, de luta e de consenso”.

O que se vê erguido hoje, é segundo Arlindo Maia, fruto de um saber construir em equipa: “Fazíamos duas reuniões por mês e se necessário mais uma ou outra extraordinária. As pessoas debatiam problemas e soluções. O Delfim Maia nunca faltou a uma reunião. Eu também tinha o cuidado de ver a sua disponibilidade. Tivemos também aqui o Capitão da Marinha Mercante, Morais de Almeida, das Caxinas, que foi Vice-provedor, uma pessoa com muito entusiasmo e rigor. Recordo que, quando entrámos, a Misericórdia não tinha nada, nem um profissional. O primeiro individuo contratado foi um porteiro que abria também as portas da Igreja da Misericórdia. Dizia-se também que tinha cerca de 1800 irmãos, muitos deles, quando nasceram foram colocados aqui pelos avós e pelos pais. Havia essa tradição. Só ficou quem realmente queria ser irmão e tinha disponibilidade para ajudar. Em Fevereiro de 1984, na primeira Assembleia Geral Extraordinária aprovámos os novos estatutos, que são de personalidade jurídica Canónica. Ou seja, são aprovados pelo Arcebispo de Braga. Antes da aprovação tive uma conversa com o Dom Eurico para lhe dar a conhecer as nossas verdadeiras intenções”.
 
E recorda: “Nesse mesmo ano fizemos sete Assembleias Gerais Extraordinárias e duas Ordinárias. Para sensibilizar a comunidade era importante consultá-las para definir uma estratégia de investimento. Preparámos e demos formação a cinco jovens para percorrer as freguesias do concelho e inquirir as pessoas sobre o que queriam ver nascer na Misericórdia. Concluiu-se que a maior percentagem da população manifestou o seu interesse em ver uma obra de benefício para os idosos, depois para as crianças e por último para as pessoas com deficiência. Na verdade ninguém imaginava a quantidade de deficientes que havia no concelho, mesmo na cidade. As pessoas escondiam os seus deficientes, nem sempre por vergonha, mas pelos problemas físicos da pessoa com deficiência, que não permitiam sequer sair à rua. Hoje, temos o Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência CARPD, em Touguinha, que deu inicio à sua actividade em Novembro de 1994. Tem as valências de Lar Residencial, Centro de Actividades Ocupacionais e Serviço de Apoio Domiciliário”.

Os Lares Procuram Dar Qualidade de Vida ao Idoso

“Todas as valências que a Misericórdia tem hoje, foram construídas a partir da nossa entrada. Anteriormente, tinha apenas o Hospital, que tentámos reaver em 1987, depois em 1994, chegámos mesmo a ter um contrato, em 2002 voltamos a tentar e em 2013 também estivemos para assumir a gestão do Hospital. Nunca o conseguimos, mas temos uma colaboração contratual, porque somos nós que fazemos o serviço de Radiologia. Temos também um serviço de Cardiologia muito completo, com provas de esforço, que o Hospital não tem. Para as nossas cirurgias, temos um contrato com o Hospital, para a cedência de sangue, sempre que precisamos”, explica Arlindo Maia.

Em relação ao desejo e escolha dos inquiridos, acrescenta: “Efectivamente o idoso é a pessoa que nos preparou para o mundo, para o futuro. Foram aqueles que trabalharam antes de nós. Por muito mal que a vida fosse, foram eles que a mantiveram, que a produziram, que a melhoraram dentro do possível. O idoso tem que ter no fim da vida uma resposta. Aqueles que foram afortunados podem pagá-la, os que não são afortunados precisam dessa resposta. Temos que ter em atenção a situação de cada um e não vamos obrigar a pagar quem não tem condições. É importante construir uma sociedade com outra visão e de entendimento diferente dos tempos antigos. Os velhos não são para levar ao monte que ajudaram a cavar. Temos que ter respeito pelas pessoas que nos antecederam em construção. Em 1985, o projecto estava aprovado pela Câmara e apresentámos na Segurança Social, que nos legou ao arquitecto Lima Lobo, uma pessoa muito recta, que nos elogiou o projecto, que no entanto, foi chumbado pelos responsáveis da Segurança Social. Tivemos o atrevimento de fazer quartos com banho privativo. Teriam que ser camaratas com o mínimo de dez pessoas e uma central de sanitários com os banhos”.
 
A indignação levou Arlindo Maia a agendar uma reunião em Lisboa para apresentar o projecto: “Fui recebido pela Secretária de Estado da Segurança Social, Leonor Beleza, que me disse logo que as normas eram aquelas e não iria mudar. Apresentei-me, respirei fundo e disse que vinha de Vila do Conde, exactamente porque tinha levado negas de toda a gente responsável na segurança Social, que estava ali a despesas próprias e queria que ela ouvisse e apreciasse o projecto. Mandou-me sentar. Com o projecto em cima da mesa, fui explicando que pretendíamos construir umas instalações residenciais para idosos, que eram um benefício para a comunidade. «Queremos instalar os quartos com banho privativo por uma questão económica e não por qualquer luxo. As pessoas que vão ocupar os quartos não têm casa, não têm nada, são pobres idosos com reformas miseráveis, mas são autónomas, capazes de limpar e assear o quarto e a casa de balho. Aqui têm tudo, água, luz, alimentação e o resto fazem elas, organizam os seus próprios trabalhos. Estamos a falar de poupança e não de despesa. Não posso acreditar que não nos deixam fazer isso». Leonor Beleza acabou por dizer que eu tinha ganho o projecto e que a Segurança Social ia comparticipar. Para iniciar a obra meti lá 5 mil contos, sem juros. Criámos a empresa e pedimos para fazer por administração directa, na altura era possível, contratámos um empreiteiro e começámos a obra. O Lar de Terceira Idade está em funcionamento desde 1989 e dispõe das valências de Lar Residencial, Centro de Dia e Serviço de Apoio Domiciliário”.

A vida é Tão Versátil que Precisamos de Felicidade em Tudo

Reorganizada a estrutura directiva e assumidas as intenções, os projectos começaram a avançar ainda antes da construção do Lar Residencial: “Em 1985 apresentei um estudo ao Fundo Social Europeu, para a primeira formação nas artes de artesanato, mantas, rendas de bilros, camisolas poveiras, que eram feitas em Azurara e carpintaria naval. No ano seguinte, tivemos 144 jovens que concluíram a formação, foi um sucesso. No projecto, escrevi que em Vila do Conde havia uma Feira Nacional de Artesanato e nós propúnhamos participar nela, para que os nossos formados tomassem contacto com o cliente, porque venderiam o produto que fabricavam. Inscrevemo-nos para ir para a feira com Stand próprio, mas Câmara não deixou. Os nossos jovens, não aceitaram a decisão e resolveram apresentar-se na inauguração da feira com os trajes de trabalho, levaram as almofadas com as rendas de bilros, mantas às costas, os carpinteiros levaram umas ferramentas e como tínhamos doçaria conventual, levaram uma caixa para oferecer aos convidados da inauguração. Os políticos locais e alguns convidados entraram pela porta do cavalo, mas o Secretário de Estado que desconhecia a situação saiu da viatura frente à porta principal e os doceiros ofereceram-lhe doces, que ele agradeceu. Depois, vieram os funcionários da Câmara para conduzir o governante ao interior da feira”.
 
O impedimento resultou numa catadupa de convites para outros certames e feiras: “Na segunda-feira seguinte, a Misericórdia foi convidada, pelo Instituto de Emprego, para ir ao Porto à abertura da feira de artesanato, que organizavam no Pavilhão de Desportos. Fomos convidados para servir o Porto de Honra, ofereceram-nos um Stand ao lado do Vinho do Porto e a nossa doçaria foi um sucesso. Duas semanas depois, recebemos novo convite para apresentar o nosso artesanato no Casino de Estoril. Levámos umas blusas em linho suíço com bordados das rendas de bilros, vendemos tudo a estrangeiros. O Casino cedeu-nos uma cozinha e fizemos bolos conventuais para oferta e venda. Este movimento e interesse levou a Misericórdia a ser convidada para imensas feiras de artesanato e acabámos por participar em algumas. Ou seja, começaram a ter uma atenção muito especial pela Misericórdia, tudo graças à atitude dos políticos, que nos impediram de participar na feira de artesanato local”.

Os passos do futuro levaram Arlindo Maia a apostar na formação profissional: “Fizemos um estudo e apresentámos um projecto para receber apoio Comunitário, em 1987, para a formação profissional em todas as artes de construção civil, cavouqueiros, cimenteiros, azulejadores, pedreiros, electricistas, serralheiros e desenhadores da construção civil. Isso deu mais de 300 operários. Juntando o artesanato, a informática operadores e instrutores, no total eram 504 jovens na formação. Ainda temos um funcionário dessa formação, que é encarregado nosso de carpintaria. Não ficamos à espera do apoio, que a ser aprovado viria em finais de Março, e iniciamos a formação em Janeiro. Pedimos apenas que a prática fosse feita em contexto de trabalho, porque a Misericórdia tinha projectos aprovados na área da Segurança Social, para pessoas idosas, construção de casas a custos controlados, na Póvoa de Varzim e Vila do Conde. A construção do bairro de casas em Vilas do Conde não foi aprovado, mas na Póvoa de Varzim, na Mariadeira, foram”.

A Misericórdia Transformou-se pela Sua Saúde e Intervenção Social

Ao longo dos anos foram nascendo novos edifícios e valências Sociais, mas também de Saúde: “Inaugurámos em 1990, a Fisioterapia e dois anos depois, a Imagiologia. Fizemos com o Ministério da Saúde uma instalação com Radiologia para mamografias. Começámos também a fazer Colonoscopias. As edificações são da nossa responsabilidade porque em 1987 obtivemos do Grémio da Construção, um alvará. Contratámos um engenheiro para estar à frente das obras, comprámos duas gruas e betoneiras, metemos cerca de 80 profissionais da construção civil e começámos a construir. O Lar da Terneira Idade, grande parte foi feito por nós, porque na altura fizemos um contrato com o empreiteiro e ficámos com os seus empregados. A Casa da Criança e o novo edifício, com as valências da saúde, foram construídas por nós”.

O empreendedorismo social é uma realidade empregadora: “Temos 900 trabalhadores, acresce o pessoal em regime de recibos verdes, como médicos e alguns técnicos, pessoas que prestam serviço também noutras unidades. Não temos capacidade para ter aqui 40 médicos da nossa exclusividade. Quanto ao Lar, actualmente, tem 158 utentes. Temos dois Lares juntos. Quando fizemos o primeiro lar tinha capacidade para 78 camas, depois aumentámos para mais 90 utentes. Quando construímos o primeiro, os serviços de lavandaria e de cozinha ficaram num lugar que possibilitava aumentar com características separadas, sendo a única coisa dependente a cozinha e a lavandaria. A capacidade neste momento serve mais de 170 utentes. No contrato que temos com a Segurança Social são 158, os outros podemos ter porque essas pessoas não têm apoio do Estado. Se não tivéssemos alvará não tínhamos feito tanta obra”.

Arlindo Maia reconhece que as pessoas têm um carinho especial pela instituição: “Fiquei muito sensibilizado com pessoas pobres que tinham reformas miseráveis e vieram oferecer um mês à Misericórdia. Tentava contrariá-las mas a vontade delas ofertar era maior. Recordo na construção, a forma como a população respondeu, as telhas do Lar foram todas oferecidas pelas crianças da catequese e pelos pais. No lançamento da primeira pedra, estava o Bispo Auxiliar de Braga, Dom Joaquim, irmão do padre Zé. Ele fez uma intervenção que emocionou muitas pessoas. Pusemos os camiões ao lado do Centro Paroquial e as pessoas iam lá comprar uma telha e traziam. Houve um domingo em que os trabalhadores recebiam as telhas e colocavam-nas no sítio. Foi bonito e até comovente, pelo significado”.

A experiência, o conhecimento sempre foram a partitura orientadora do Provedor da Misericórdia, na procura de soluções e respostas sociais: “Inaugurámos a ‘Casa das Rosas’ no dia 23 de Setembro de 2014. É uma estrutura com Cantina Social e Alojamento de Emergência Social. Comprámos um edifício na Rua de S. Bento, que no rés-do-chão tinha sido um bar dançante, e por cima era uma dupla habitação. Embora, a autarquia não fosse a favor da localização, era preciso que a casa ficasse no meio da sociedade, que a vissem. Durante a noite está lá um guarda-nocturno. Os dois andares têm capacidade para alojar 24 utentes, em 14 quartos com banho privativo, e destina-se ao acolhimento temporário de pessoas ou famílias em situação de vulnerabilidade e desprotegidas socialmente. Temos também alimentação, higiene e serviço de lavandaria. Nas festas que se fazem lá, todos os anos, os vizinhos são convidados. Uma cabeleireira passou a oferecer-se para arranjar os cabelos dos utentes que frequentam a casa. As pessoas foram sensíveis ao problema.
Ter sido Provedor de uma casa com mais de cinco séculos é para Arlindo Maia uma grande honra: “Sinto uma realização pessoal muito grande, mais uma coisa que aconteceu na minha vida. Hoje, posso dizer que fácil foi que nós fizemos, difícil é o que é preciso fazer agora. Disse-o antes das eleições, a obra está aqui, mas agora é preciso mantê-la, dinamizá-la, é preciso fazer sempre algo mais e melhor. Não podemos viver da obra construída, para não correr o risco de acontecer como no tempo em que a Misericórdia só tinha o Hospital. Se a Câmara tivesse tomado posse, a Santa Casa extinguia-se”.

E conclui: “Saio em definitivo, com a mesma força com que entrei. Continuo apenas a ser membro da Irmandade. Posso sempre aconselhar, nada mais. A equipa é muito boa e tem gente jovem e capaz. Eu acho que a nossa sociedade só melhora se houver uma abertura total e percebermos que podíamos ser como aquele que está ali ao nosso lado e, há que trata-lo por igual. Não aceito que a pessoa se humilhe. Sabemos que muita da miséria é falta de brio próprio, de personalidade. No que posso, tento resolver, mas sei que é insignificante o que faço pelo outro”.

Por:
José Peixoto

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