Voz da Póvoa
 
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A Dança nos Pés e os Tapetes de Beiriz nas Mãos

A Dança nos Pés e os Tapetes de Beiriz nas Mãos

Vidas | 1920 | 7 Agosto 2019

Florinda da Fonte da Conceição nasceu em 1926, em Beiriz, Póvoa de Varzim. Descendente de uma família de camponeses, cedo conheceu os trabalhos da pranta e da colheita. A escola, que frequentou até à 3ª classe, serviu de aprendizagem das letras, mas também de recreio, onde partilhou, com outras meninas, muitas brincadeiras e jogos tradicionais. Aos 12 anos foi trabalhar para a Fábrica de Tapetes de Beiriz, onde se manteve até ao nascimento do terceiro de cinco filhos, fruto do casamento, aos 22 anos, com Manuel da Conceição. Durante mais de 65 anos organizou passeios, de autocarro, a vários locais do país, com destaque para o Santuário de Fátima e outras romarias de maior crença religiosa.

“Éramos nove irmãos, uma casa com muitas bocas e trabalho com fartura, mas onde a comida nunca sobrava. Os meus pais faziam terras e levantava-me com os galos para os trabalhos agrícolas. Mesmo quando andava na escola, as horas livres eram passadas no campo. Desde menina que aprendi a plantar batatas, a semear milho e a sachar. No tempo da segunda guerra mundial, a comida era racionada por senhas, o pão, o azeite, o açúcar ou o arroz. Fui muitas vezes trabalhar para a Fábrica de Tapetes de Beiriz com uma côdea de pão”, recorda Florinda da Fonte.

E acrescenta: “Entre o prato da fome e o trabalho, a gente também se divertia. Nas desfolhadas, nas casas dos lavradores, juntavam-se os jovens da aldeia e entre a espiga de milho vermelho, que dava direito a abraço e beijo na cara de quem gostávamos, havia muita alegria, canto e dança ao toque da concertina. No final servia-se uma merenda melhorada e um copo de vinho para regar o cansaço. Sempre gostei de borga e à custa disso levei algumas sovas. Aos domingos juntava-me com um grupo de raparigas e íamos dançar onde houvesse festa. Fui muitas vezes até Touguinha, Tougues e Junqueira. Estava sempre a rezar para que a noite não caísse. O certo é que chegava a casa e caía quase sempre pancada. Também fazíamos peregrinações a pé à Senhora da Saúde, Senhora do Alívio, São Bento de Vairão, Santa Eufémia, Santa Rita e outras, mas de passear nunca cansei”.

Trabalhar na Fábrica de Tapetes de Beiriz foi para Florinda da Fonte uma honra: “Na altura foi mais um trabalho que me levava a pé até Quintão, onde estava a fábrica, mas passados estes anos, com a fama que os tapetes têm em todo o mundo, é um orgulho ter batido o fio naqueles teares. Havia teares de duas, três mulheres e até de sete. Tínhamos que gritar carreira para a colega passar a palavra à outra. Só quando se fazia serviço liso se cantava. Entre o ir e vir do trabalho é que havia muita cantoria. Ao sábado só trabalhava se houvesse encomendas. Depois da fábrica ainda ia para o campo. A gente passava os dias a trabalhar”.

Depois de casada passou a ajudar o marido a organizar excursões: “O Manuel já fazia esse trabalho antes de juntar os trapos. Organizava excursões a tudo o que fosse romaria, mas também alguns passeios turísticos. Faleceu com 42 anos e eu tive que me fazer à vida. O campo, onde cheguei a trabalhar à jorna, nunca larguei. A última excursão aconteceu há três anos, quando a saúde começou a mandar-me ao médico. Até aí só obrigada. Cheguei a organizar viagens de quatro dias pela Covilhã, Castelo Branco, Guarda, cidades que rodeiam a Serra da Estrela”.

Falar do Rancho de Santa Eulália de Beiriz é ver Florinda da Fonte com um brilhozinho nos olhos: “Na longa viagem pela vida criei os filhos que me deram oito netos, outros tantos bisnetos e um tataraneto. Entre o trabalho, sempre que foi possível, dei o pé à dança e nos últimos 25 anos dou voz ao coro do rancho da terra onde nasci, me criei e casei. Já fomos dançar a França, à ilha da Córsega e muitas vezes à Galiza. Participo nos cortejos todos com as roupas tradicionais. Eu, na minha adolescência, também tinha um traje domingueiro e um do campo. Sou a mais velha do grupo e conto continuar a sê-lo. No meu tempo de criança não havia dinheiro para brinquedos, por isso tínhamos que inventar entretenimento. Agora não invento nada, mas canto as canções dos nossos avós, das gentes que sempre amaram este belo tapete que é Beiriz”.

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