Voz da Póvoa
 
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Olha o Passarinho até Quando

Olha o Passarinho até Quando

Vidas | 25 Outubro 2020

Manuel Cerqueira Gonçalves nasceu em 1929, Na Rua José Malgueira, na Póvoa de Varzim. Fez a Escola Primária em Braga, cidade onde passou a adolescência. Depois a família instalou-se em Viana do Castelo, onde acabou por seguir as pisadas do pai, Manuel Gonçalves, fotógrafo profissional. Contraiu matrimónio com Maria Madalena e é pai de dois casais de filhos.

“Sou descendente da família dos Barateiros. O meu avô chamava-se Manuel Gonçalves e deu o mesmo nome ao meu pai, que por sua vez o repetiu em mim, seu filho único. Do meu pai herdei o nome e a profissão. Na altura havia muitos, mas ele foi um dos primeiros fotógrafos ‘à lá minuta’ na Póvoa de Varzim. Aprendi os segredos da fotografia e comecei, com 17 anos, a fotografar ‘à la minuta’ no monte de Santa Luzia, junto ao templo do Sagrado Coração de Jesus. O meu pai mandou-me para este lugar e nunca mais saí. A minha profissão foi sempre esta, de retratista ao ar livre. Estas máquinas são simples, fotografam o negativo em papel, depois revela-se, passa-se para o positivo e a beleza aparece. É feita na hora, em cinco minutos. Tira-se a fotografia e coloca-se no balde a lavar os químicos”, recorda.
 
O número de fotografias que fez ao longo de uma vida, para Manuel Gonçalves é incontável: “Não devo errar se apontar mais de um milhão de fotografias. São 74 anos a tirar retratos, aqui no monte. Só não venho se estiver a chover. Houve uma altura que o trabalho quebrou bastante, com o surgimento das máquinas digitais e depois o facilitismo dos telemóveis, mas na verdade, hoje em dia, a procura da fotografia ‘à la minuta’ voltou a crescer. Penso que as pessoas com tanta tecnologia acabam por achar curioso este malabarismo poético. Um processo que não deixa de ser rápido, mas mais trabalhoso. Com esta doença que anda aí, estive três meses em casa. Uma pessoa habituada a trabalhar aqui diariamente ao ar livre, como os pássaros e de repente, mesmo de forma voluntária, ficar preso em casa, na gaiola, é complicado”.

Para quem passa é como se o tempo tivesse parado, como acontece numa fotografia: “São sorrisos a preto e branco e a ideia é tirar uma fotografia à moda antiga. Aparecem por aqui muitos estrangeiros, espanhóis, ingleses e franceses que vêm acompanhados por emigrantes. Depois, é uma coisa bonita, que vem de um tempo tempo antigo, mas a tecnologia veio para vencer. Começa logo por vencer as pessoas que abandonam a criatividade e correm para a facilidade. Estas máquinas ‘à lá minuta’ têm a sua graça. No passado, no tempo dos rolos fotográficos, eram as máquinas que mais rápido mostravam a fotografia. Os rolos começaram por demorar alguns dias a ser revelados e só muito mais tarde é que se revelavam em meia hora ou numa hora. Venci sempre esse tempo, aqui durava apenas cinco minutos e a felicidade ficava logo nas mãos de cada um. Quando comecei a fotografar levava cinco escudos (2,5 cêntimos) agora levo cinco euros por cada relíquia fotográfica”.

Olhar em volta da caixa mágica de Manuel Gonçalves, por onde os olhos entram na escuridão na hora de revelar, é encontrar imagens de pessoas com história e com memória: “Tirei fotografias a muita gente famosa que vinha aqui ao monte de Santa Luzia. Cheguei a fotografar o avô do Filipe VI rei de Espanha, João, Conde de Barcelona. Estava asilado em Lisboa com a família depois do Franco tomar o poder. Vieram ter comigo para lhes tirar uma fotografia. Fotografei o grande actor Vasco Santana e o elenco da Revista ‘Arroz de Miúdas’, que trouxeram ao Porto. Eram dois carros, um deles apitou para parar e saíram para tirar a fotografia.

E acrescenta: “Também fotografei o Raul Solnado, Henrique Santana, Helena de Matos, Tony de Matos, António Vitorino de Almeida, Rita Ribeiro, Francisco Nicholson, Rui Veloso, Fernando Tordo, Luís Goucha, Carlos Quintas ou Carlos Malato. Também tirei à grande fadista Hermínia Silva. Gostava de ter tirada a Amália Rodrigues, mas não tive a sorte de a ver por cá e, sei que veio. Nunca fiz casamentos mas fotografei muitos noivos e convidados que vinham aqui a Santa Luzia e pediam para serem fotografados. Tenho aqui uma fotografia muito especial que tirei a um casal com um menino que fez chichi no colo do pai, enquanto eu dizia para olhar o passarinho, que existe mesmo aqui empoleirado na máquina”.

Manuel Gonçalves para além do fascínio de fotografar gosta de colecionar máquinas fotográficas: “Nesta longa viagem fui adquirindo muitas máquinas, para trabalhar e pelo prazer de guardar. Tenho uma vitrina com mais de 50 máquinas antigas, de fole. Sempre fotografei ‘à la minuta’, mas gostava das máquinas fotográficas e ia comprando e colecionando. Ainda recentemente fui buscar uma máquina a Vigo. Ensinei os filhos a fotografar. O mais novo sabe trabalhar tão bem como eu, mas nenhum quer esta profissão”.
A Póvoa de Varzim continua a ser visitada pelo Fotógrafo: “Sempre que posso vou visitar a família que lá tenho. É uma grande cidade, que cresceu para cima, até de mais. Passei o tempo de menino na Póvoa e depois fui para Braga. A adolescência é mais marcante, tenho amigos desse tempo e quando o SC de Braga perde fico triste. Também joguei futebol de rua com bolas de trapo. Eram meias velhas metidas dentro das outras. Hoje, o mundo está a modificar-se muito rapidamente e às vezes tenho medo que os meus netos sejam vítimas dessa mudança. Até lá vou continuar a ser fotógrafo ‘à lá minuta’, tenho, mas não tiro fotografias com telemóvel”.

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