Voz da Póvoa
 
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Ó meu amor de algum dia, havemos de ir a Viana

Ó meu amor de algum dia, havemos de ir a Viana

Vidas | 9 Agosto 2021

A vida é um romance por escrever, quando contada ganha uma narrativa de memória, uma história de vida.

Maria Augusta Lima Ribeiro nasceu em 29 de Julho de 1930, em Darque, Viana do Castelo. Na idade de ir à escola, não chegou a completar a 2ª classe, mais tarde, já casada com José Duarte Ribeiro e mãe de um filho, viria a concluir a 4ª classe.

“A minha mãe trabalhava na fábrica do Cais Novo e deixava-me com a minha avó, na companhia de um irmão e um primo. Tinha também uma irmã e uma prima que já andavam a trabalhar. Quando eu ia fazer 11 anos, fui servir para a casa de família do Dr. Carteado, em Viana do Castelo, conhecida pela Casa das Armas, onde uma minha tia era governanta e cozinheira. Ali, aprendi melhor as boas maneiras, embora já as levasse de casa. Limpava o pó e fazia as camas das senhoras, a viúva do Dr. Carteado e duas filhas. Praticamente, só saía de casa para fazer compras, pôr uma carta no correio ou ir à missa. Fiz a minha comunhão Solene na igreja Matriz de Viana. Acabei de me criar naquela casa onde fiquei até aos 19 anos”, recorda Maria Augusta.
 
Mulher feita de princípios e tarefas, quis sair daquele pequeno mundo: “Nunca recebi um tostão e queria ganhar a vida. Escrevi uma carta a uma prima que estava casada no Porto, para me arranjar uma casa onde trabalhar. Na resposta veio um emprego para a casa de uma família inglesa. Um tempo depois, a cozinheira Ana foi para Inglaterra e como eu queria ganhar dinheiro, pedi-lhe para me arranjar trabalho naquele país. Entretanto, para o seu lugar arranjei a minha amiga Lucília. Quando veio a carta a chamar-me para Inglaterra, tinha eu 20 anos, acabei por levar outra moça que trabalhava comigo. Eu fui para servir à mesa e ela para arrumar os quartos. Eu fazia tudo muito bem feito e os patrões adoravam-me, mas não gostavam da outra moça e quiseram mesmo mandá-la para Portugal. Só não veio porque acudi por ela”.

A Inglaterra não deixou muitas saudades a Maria Augusta: “Tive uma hemoptise (expectoração de sangue originário dos pulmões) e acabei por ser internada num sanatório, pago pelos meus patrões, onde fui muito bem tratada. Passado um mês, queriam que fosse tratada em Portugal, mas eu disse que só regressava ao meu país com a mesma saúde que cheguei a Inglaterra. Fiquei e ao fim de seis meses estava curada. Enquanto estive no sanatório, os patrões mandaram a outra empregada para Portugal. Algum tempo depois, regressei a Darque e preguei um susto à minha mãe, tão magra que me viu. Em Inglaterra estive cerca de três anos”.

Pouco tempo depois, sempre pela vontade de procurar uma vida melhor emigrou para o Brasil: “Conheci uma espírita em Viana do Castelo que me disse que eu ia para o Brasil, onde tinha um rapaz magrinho à minha espera. Como tinha família naquele país, aventurei-me. Como queria trabalhar numa boa casa, lia o jornal todos os dias e um dia em resposta a um anúncio fui à embaixada de Israel inscrever-me. Queriam uma pessoa, de preferência portuguesa, que fosse honesta e meiga, para tomar conta de uma criança. O meu trabalho sempre foi servir à mesa dos patrões. A antiga babá forçava o menino a comer e por isso foi despedida. Na entrevista disseram-me que eu era a primeira pessoa que conseguiram entender. Tirei uma radiografia aos pulmões e comecei a trabalhar. A embaixatriz tinha um menino que se amedrontava com os empregados da embaixada, mas aos poucos conquistei-lhe a alegria”.

E acrescenta: “Eu dormia no quarto do menino numa segunda cama. O embaixador e a esposa saíam todas as noites para a vida deles, mas antes de sair a embaixatriz entrava no quarto e dava-lhe um beijo. Uma noite o menino estava, sem que eu me tivesse apercebido, a dormir na minha cama encostado a mim. Ela acordou-me e pediu-me se deixava entrar o embaixador para ele ver. Aquele menino adorava-me”.

Maria Augusta conheceu o tal rapaz magrinho e começou a namorar: “Dávamos as mãos, mas nunca deixei abusar. Quando me aprontei a casar, a embaixatriz quis conhecer o meu José - o homem que roubou o coração do amor do meu filho – disse ela. Recebeu-o com gentileza e deu-lhe alguns conselhos. A mim disse que se algum dia não fosse feliz, tinha sempre a porta aberta para voltar. Quando saí daquela casa ganhava dez contos (50 euros) por mês, o meu marido, onde trabalhava recebia três contos (15 euros). A embaixatriz, a primeira vez que entrou numa igreja católica foi no meu casamento, que ainda dura. Fizemos a 13 de Maio 60 anos de matrimónio”.

Com o casamento nasceu a aposta num negócio: “Comprámos uma padaria que ficava perto do sambódromo do Rio de Janeiro. Logo que casei, pouco tempo depois, fiquei grávida. Na padaria tínhamos 8 empregados e com seis meses de grávida o dinheiro dava mal para pagar os salários, porque alguém nos andava a roubar o dinheiro do cofre. Desconfiava de um empregado, mas segundo o meu marido era o melhor que tínhamos. Um dia cheguei perto da Dona Teresa, esposa do senhor que nos passou a padaria, ambos portugueses, e perguntei onde havia uma igreja com um Santo António. Não era muito longe da minha casa. Pedi-lhe que me mostrasse quem andava a tirar-nos o dinheiro e prometi não fazer mal algum. No outro dia de manhã surpreendi o empregado com o cofre aberto e a meter o dinheiro no bolso. O meu marido fez o que prometi ao S. António e despediu-o. Estive 12 anos no Brasil, um país cheio de encanto, mas com muitos ladrões. Um dia, enquanto dormíamos, entraram no nosso quarto e roubaram toda a roupa que o meu marido tinha no roupeiro”.

Quando regressou a Darque, Maria Augusta foi surpreendida pela inveja. “Tínhamos enviado dinheiro para comprar uma mercearia, mas quando aqui chegámos, roeram a corda e devolveram-me o dinheiro. Acabámos por abrir o Café Carioca mesmo em frente da mercearia, que passados três meses fechou as portas para nunca mais abrir. Eu tinha muita clientela, mas todos os dias saía do café de madrugada e acabei por passar a um sobrinho. Por intermédio da minha amiga Lucília, fui ajudante de cozinha do Restaurante Caracol em Chafé. Entretanto ela saiu e passei a cozinheira sem nunca o ter sido na vida, mas a clientela cresceu muito. Quando juntei o dinheiro suficiente para uma carrinha, entrei no negócio do peixe. Ia ao Castelo comprar peixe do anzol e sempre fresquinho. Comecei a fazer os meus fregueses na freguesia de Chafé e em Darque. Quando vendia tudo de manhã, ia à lota de Viana para vender à tarde. Comecei a ganhar gosto e dinheiro”.

E conclui: “Um certo dia, começou a aparecer um sujeito que vendia peixe em Carreço. Passava sempre à minha frente e chegava a barrar-me o caminho para vender primeiro. Nunca o confrontei e fui vendendo aqui e ali aos meus fregueses, por vezes alguns já tinham comprado, mas nunca deixei de vender o meu peixe. Um dia, Jesus deu aos homens do mar uma fartura e o preço baixou para menos de metade. O sujeito esperou por mim para me dizer que deveríamos manter o preço do peixe dos dias anteriores. Respondi que fizesse o que entendesse, que eu faria o mesmo. Eu vendi o peixe pela metade do preço. Os clientes que já lhe tinham comprado só usavam na boca a palavra ladrão. No dia seguinte, ele voltou, mas ninguém lhe comprou um peixe. Não discuti com ele, não lhe fiz nada, foi Deus que o retirou do meu caminho. Ele desistiu e nunca mais apareceu. A vida só nos traz felicidade se a soubermos merecer”.

Por: José Peixoto

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