Voz da Póvoa
 
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O Caminho da Superação na Estrada do Optimismo

O Caminho da Superação na Estrada do Optimismo

Vidas | 1924 | 18 Setembro 2019

José Graça Moreira nasceu em 1962, nas Caxinas, e desde os 27 anos que vive em Aver-o-Mar. Fez a 4ª classe, mas outras aprendizagens, como tocar guitarra, órgão ou ser locutor de rádio, se seguiram. A vida tem os seus dissabores, mas também os seus amores. Casou com Maria de Fátima Pereira e é pai de três filhos. Durante 17 anos, com uma agulha e a mestria das mãos, remendou e fez redes de pesca.

“Com três meses de idade tive meningite, que me atrofiou as pernas, e cresci a gatinhar, mas as crianças acham tudo normal e não têm os preconceitos dos adultos. Desenrascava-me em tudo e jogava à bola na rua com os outros miúdos caxineiros. Com as minhas limitações ia para a baliza, mas até defendia bem. Um ano antes de entrar na escola fui internado no hospital São João de Deus, em Montemor-o-Novo. A primeira vez fiquei oito meses longe da família. A minha mãe não queria que eu fosse operado a nada. Fiz uma boa recuperação. O tratamento era muito doloroso. Deitavam-me e metiam pequenos sacos de areia nas pernas para endireitar. Depois passei a usar um aparelho dos pés ao pescoço que me permitiu andar de muletas. Parti alguns aparelhos. Até aos 14 anos ia sempre fazer o tratamento para tentar recuperar o andar. No hospital também estudava, fazia muitos ditados”, recorda.

A deficiência não afastou José Moreira de experimentar as sensações do mar: “O meu pai tinha três barcos à vela (catraias) e com quatro ou cinco anos metia-me na proa e fazia-se ao mar com outros pescadores. A ver, a gente acaba sempre por aprender a iscar os anzóis e outras técnicas de pesca. Quando era já pai de filhos, fiz pesca desportiva de alto mar. Chegamos a apanhar 11 caixas de gorazes, uns peixões. Era eu que fazia o meu estralho, também chamado de fanaqueiro, com cinco ou seis anzóis”.

E acrescenta: “Aprendi a tocar guitarra na minha adolescência. Comecei a calejar os dedos numa viola que o meu irmão Abel, pescador do bacalhau, construiu para um amigo. Um dia a viola desapareceu de casa e eu escrevi a outro irmão, que era pescador em San Sebastián, no País Basco, para me trazer uma. A viola era pouco maior que um cavaquinho, mas o meu bom ouvido ajudou na aprendizagem. O escultor Carlos
Bompastor deu-me umas dicas e ensinou-me a afinar a guitarra, mas sou um autodidacta. Também tocava na capelinha do bairro dos pescadores de Vila do Conde. Quando o padre levantava a hóstia eu dedilhava na guitarra, ‘Always Somewhere’, dos Scorpions. Também me ofereciam violas quebradas e eu consertava”.

Para José Moreira, querer é poder, mas nada se consegue sem trabalho: “Quando comecei a aprender guitarra, tocava de manhã e de tarde, só parava para almoçar. Mais tarde também aprendi órgão. Comecei a tocar ao vivo no Salão Paroquial das Caxinas e no Centro Comercial Vila Cova. Depois, com o amigo Francisco da Viola, fiz algumas viagens musicais pelas cidades vizinhas como Esposende ou Viana do Castelo. Também cheguei a acompanhar fadistas. O bichinho pela música teve continuidade nas rádios-piratas, primeiro na Rádio Vila do Conde e depois na Rádio Caxinas. Entre 2004 e 2009 colaborei na Rádio Linear. Fazia um programa aos domingos de manhã”.

Com o casamento as responsabilidades aumentaram e era necessário uma profissão: “Tinha uma reforma por invalidez que me foi retirada por ter casado. Enriqueci no amor, um alimento necessário, mas o Estado esqueceu-se da boca. O meu médico ajudou-me a recuperar a mísera reforma e eu fui aprender a fazer redes com o meu primo, que tinha o barco ‘Fátima Isabel’. O meu irmão Manuel Moreira foi quem me ensinou a fazer costura de dois cabos, uma forma de os unir sem qualquer nó. Depois aprendi a atar e a fazer redes de malha para a pesca”.

José Moreira foi sempre um optimista e reconhece que a vida não o deixou ficar mal: “O emprego é sempre complicado arranjar, mais por ignorância do empregador do que pelo lado da produção, porque existem trabalhos a que nos adaptamos facilmente. Nunca encostei no muro das lamentações e isso fez com que a vida me oferecesse muitos momentos felizes. Saudade tenho dos que perdi e da rádio que sempre me tocou, não só pelos que estão dentro, mas principalmente pelos que nos ouvem”.

 

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