Voz da Póvoa
 
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Nós na Dança Pela Arte das Emoções

Nós na Dança Pela Arte das Emoções

Vidas | 1942 | 5 Fevereiro 2020

Aldina Odete dos Reis Maria da Fonseca nasceu em 1947, na freguesia de Vila Chã, em Vila do Conde. É licenciada e pós-graduada em Ciências do Desporto e mestrada em Performance Artística de Dança. Pelo caminho da infância e da adolescência nasceu o fascínio pelas artes. Quando o tempo se tornou mais maduro e leccionava já no Liceu Eça de Queiroz abriu em 1985 a Academia Gimnoarte e em 2000 criou a Associação Nós da Dança. A Academia Gimnoarte, escola de ballet clássico, está associada à Imperial Society of Teachers of Dancing. É casada com Eduardo Rios da Fonseca e tem um casal de filhos, Ricardo Rios e Joana Rios.

“Esta ligação às artes vem de criança. Na aldeia onde morava, os meus pais e os meus tios colaboravam em muitas iniciativas ligadas às artes, tudo dentro de uma certa simplicidade, própria de uma aldeia rural. Faziam teatro, organizavam as janeiras pelas portas e construíam os carros alegóricos para o carnaval, tudo associado a uma certa indumentária para os figurinos. Tenho memória de estar num carro de bois com vestidos de papel, todos muito exuberantes. Nos meus 12 anos o pároco da freguesia convidou-me para dar catequese às outras crianças e as minhas brincadeiras criativas resultaram em alguns teatrinhos onde a dança estava sempre presente”, recorda.

Os muitos cursos no estrangeiro, um convite de Miguel Graça Moura para fazer um programa para a televisão, sobre música e movimento, onde também dançou, abriu o caminho a Odete Rios para dar os primeiros passos no ensino da dança: “Tive na minha formação excelentes professores e trabalhei com o grande coreógrafo português Rui Horta. Em concurso nacional fiquei efectiva no Liceu da Póvoa, como professora de Educação Física. Como queria rentabilizar o meu investimento pessoal e financeiro dos meus pais, no final do horário curricular aluguei o ginásio do Liceu e comecei a dar aulas às senhoras da fina-flor poveira, que foram as primeiras na adesão ao meu projecto, e como consequência surgiram as classes de crianças. Por isso, o meu primeiro estúdio foi o Liceu Nacional da Póvoa de Varzim”.

E acrescenta: “Depois percebi que estava na altura de criar um espaço autónomo e fundei em 1985 a Academia Gimnoarte. Iniciei nas Galerias Euracini 1, com um só estúdio. Posteriormente, com o tempo e o crescimento da academia, fui adquirindo mais espaço nas galerias. O projecto arrancou com duas valências muito importantes, a música e a dança. Os meus filhos cresceram a respirar dança”.

Para Odete Rios o movimento é o seu jeito mais secreto de calar ou construir. Daí à criação de Companhia Nós da Dança foi um passo: “Participávamos em muitos eventos a convite da Câmara Municipal, até que a um dado momento a autarquia sugeriu a criação de uma associação. E no ano 2000 oficializamos os estatutos e formalizou-se um protocolo. Nesse mesmo ano o velho Garrett fechou. Embora tenhamos feito alguns espectáculos pontuais a convite de outros lugares, a Companhia Poveira Nós da Dança revitalizou-se a partir da reabertura do Cine-Teatro Garrett, em 2015. Recentemente levamos à cena, naquele palco, o 5º projecto da Companhia, o espectáculo de dança contemporânea ‘Missa Crioula’”.

A dança contemporânea vive muito de emoções: “É uma leitura muito mais orgânica e de uma intenção que pode agora ser transmitida através de uma gestualidade e passado meia hora ser uma linguagem expressionista onde não há um guião de movimento. Entendo o palco como um espaço sagrado. Por vezes surgem coisas que nos surpreendem, como se alguém lá do além nos viesse ajudar. São momentos irrepetíveis. A bailarina começa a entrar nesta dimensão transcendente que o movimento tem e que leva as pessoas a pensar que é fabricado, mas eu não quero máquinas, quero almas a viajar”.

O vento sempre transforma, rodopia, desenha no ar como uma bailarina, que para Odete Rios pode ser a consequência do vento, que é o movimento da bailarina na densidade do espaço onde dança. “O vento está ali criado por ela, mas não é a bailarina que é vento. Vento é o que existe à volta dela, que a leva. Ela construiu o vento no seu movimento e densidade de arrasto. Este movimento levou-a a perguntas-respostas constantes. Quando de facto é uma criação do coreógrafo essa dinâmica dos espaços tem que ser conduzida por ele. Há planos de trabalho alto, médio, baixo, e tem que existir equilíbrio entre estes planos para que faça sentido para o público. Mas o acto de coreografar simboliza também um gesto de coragem e humanidade para trabalhar a solidão, a dor, a energia da liberdade, a desilusão ou o desespero, o amor ou o desapontamento, a exaltação ou a revolta, requerendo também uma predisposição para aceitar as dificuldades da linguagem específica da arte”.

E conclui: “Gostava que um dia fosse possível ter na Companhia Nós da Dança apenas e só os melhores bailarinos e bailarinas poveiras. Há qualidade para que isso aconteça”.


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