Voz da Póvoa
 
...

Meio Século de Sacerdócio de José de Ribamar

Meio Século de Sacerdócio de José de Ribamar

Vidas | 28 Outubro 2020

José Gonçalves nasceu em 1930, na freguesia de Revelhe, Fafe. Era o mais velho de oito irmãos de uma família de agricultores, por isso fez a 4ª classe e começou a ajudar os pais nos afazeres do campo. Aos 12 anos, sem nunca ter pensado nisso, foi para o Seminário de Braga e saiu sacerdote. Em 1955 veio para a paróquia de S. José de Ribamar como ajudante do arcipreste. Um ano depois assumiu a paróquia onde exerceu o sacerdócio durante 55 anos. Em 2006 editou o livro “Memórias da Paróquia de S. José de Ribamar”. E em 2015 a cidade soube agradecer, com a atribuição, pela Câmara Municipal, da Medalha de Cidadão Poveiro.

“Sou do tempo em que só éramos filhos do pai, não éramos filhos da mãe. Nascia uma criança e o pai ia registá-la. Por isso o meu nome é José e o Gonçalves do meu pai. Os meus pais eram lavradores e eu estava destinado a ser agricultor. Num dia de Setembro, estava no alpendre junto ao alambique, onde no tempo das vindimas se fazia aguardente lá em casa, quando apareceu um jovem padre, que eu não conhecia, montado num cavalo e a perguntar pelo Zezinho do Souto, o meu avô. Indiquei-lhe o fundo do quintal. Entretanto, ele fez-me uma pergunta que nunca ninguém tinha feito: Tu não queres ir para o seminário? Eu nunca tinha ouvido falar no seminário, nem nunca tinha pensado em ser padre. Ele deixou cair a palavra no chão e eu fui levá-lo ao fundo do quintal, onde estavam os meus pais e o meu avô”, recorda.

O menino José Gonçalves não soube responder, mas pouco tempo depois estava a entrar no seminário: “Setembro era o mês em que os paroquianos iam levar as ofertas ao padre e ninguém dava dinheiro. Ofereciam vinho, milho, feijão, batata e até animais. Por isso, o padre veio pedir ao meu avô uma tulha para o milho, uma pipa para o vinho e uma carroça de lenha. Não sei o que conversaram, sei apenas que oito dias depois fizeram o meu enxoval e a 5 de Outubro estava no seminário. Ao contrário dos outros, nem foi preciso fazer o exame de admissão. É por isso que digo que entrei pela janela. Fiz lá as minhas humanidades, filosofia e teologia, e em 1955 fui ordenado padre”.

Depois de esperar e desesperar, José Gonçalves foi nomeado ajudante do arcipreste da paróquia de S. José de Ribamar. “Fomos ordenados 27 rapazes. Todos estavam nomeados pelo Bispo, menos eu. O Dom António era muito poupadinho, administrava a diocese com muito rigor, nem gastou papel numa nomeação. Mandou um bilhetezinho para me apresentar na Póvoa de Varzim, a 26 de Agosto, um domingo, ao senhor arcipreste Manuel Gomes. Cheguei de camioneta e encontrei o arcipreste num palanque, a participar num cortejo de oferendas para as obras da igreja, trazidas por carros de bois. Apresentei-lhe o bilhetinho e ele disse-me logo que precisava muito da minha ajuda e que trouxesse para a paróquia apenas o padre e os livros. Um ano depois o arcipreste adoeceu de repente. Ainda foi internado, mas faleceu”.

E acrescenta: “O padre Pires Quesado, da Matriz, foi nomeado arcipreste e tinha recebido do arcebispo a minha nomeação para Balasar, mas guardou a carta. Entretanto, os responsáveis da confraria foram a Braga pedir para eu ficar na paróquia de S. José, porque estava a par das obras, conhecia o arquitecto, o empreiteiro, os financiamentos e os apoios à igreja. O arcebispo disse que não era costume dar uma paróquia a um jovem e a Póvoa era uma vila turística, uma tentação. Ele tinha medo que eu me perdesse e só nomeou depois de confirmarem a disposição de me ajudar”.

José Gonçalves foi um padre de corpo inteiro e um obreiro de Deus: “A igreja foi construída com muito sacrifício, com apoios e empréstimos, e muita gente a ajudar. Os primeiros anos foram muito complicados, os poveiros estavam habituados a casar e baptizar os seus filhos na igreja Matriz e vivíamos com parcos recursos. Com o tempo fomos crescendo, adquirindo e construindo outras valências, como um espaço para a catequese ou o edifício onde está sediada a Universidade Sénior. Foram 55 anos, sem nunca ter tirado férias. Como um padre nunca deixa de o ser, passei a dizer missa na capela de Santiago e à quinta e aos sábados na igreja e valências da Misericórdia de Vila do Conde. Casei os avós, baptizei os filhos e os netos. Sinto-me feliz porque eles recordam esse tempo. Hoje vivemos numa nova sociedade, numa nova cultura, não a temos que negar, mas aceitá-la e cristianizá-la”.

 

partilhar Facebook
Banner Publicitário