Voz da Póvoa
 
...

Fernando Rebina Era “Uma Estátua Viva do Pescador Caxineiro”

Fernando Rebina Era “Uma Estátua Viva do Pescador Caxineiro”

Vidas | 30 Outubro 2020

Chamava-se Fernando Matias Marques, mas era mais conhecido por Fernando Rebina. Durante uma vida de marés vivas, enfrentou o mar e venceu-o em todas as batalhas. Era o mais velho “homem de respeito” da colmeia piscatória das Caxinas, Vila do Conde.

A sua despedida do homens deu-se no domingo e na terça feira, às 15h00 vai a sepultar no cemitério das Caxinas.

 

Recordamos aqui uma entrevista que A Voz da Póvoa, da edição de 21 de Março de 2018, lhe fez no seu centenário.

 

Vidas Por Contar (Uma Estátua Viva do Pescador Caxineiro)

 

Fernando Matias Marques, mais conhecido por Fernando Rebina, nasceu a 1 de Março de 1918, em Caxinas, Vila do Conde. O pai, António Matias Marques, que era poveiro, faleceu antes de um olhar. A mãe Ana de Jesus era Caxineira e quando se foi desta vida tinha 97 anos. A sua aprendizagem foi toda balnear, as palavras saíram do berço e as contas dos quintais de bacalhau, por onde andou 30 anos. Nenhuma outra escola lhe trouxe melhores ensinamentos. Pela universidade da vida cursou dois casamentos e 11 filhos chegaram à pia do baptismo.

Ainda gaiato, recorda uma vista de centenas de Catraias varadas no areal, à espera de um vento de feição para içar no mastro a vela e fazer-se ao mar. Tinha seis anos quando recebeu o primeiro baptismo de sal: “Ainda menino já ia com a minha mãe pelas ruas vender o peixe, mas o mar, no tempo da fome, chamava por nós ainda pequenos. O mar foi a minha escola”, recorda Fernando Rebina.

Com apenas sete anos viveu a primeira tempestade no mar e ajudou a salvar vidas: “Fomos pescar para o mar de Esposende, a 36 braças da costa. Levantou-se um temporal assustador e uma forte nortada. Todos os barcos, de vela latira, decidiram regressar à Póvoa. Uma Catraia de Esposende, que tinha estreado o mar nesse dia, seguiu-nos, mas os homens foram à proa e o barco virou. O meu irmão, mais venho 4 anos que eu, e um cunhado, fomos recolhendo os seis homens para o nosso barco. Depois fui para a proa fazer cigarros para os náufragos aquecer”.

Na primeira metade do século XX, os meninos fizeram-se homens para a pesca do bacalhau e Fernando Rebina foi dos mais novos a embarcar: “Fui com 14 anos como moço. O capitão Labricha, do navio Santa Isabel, tinha muita amizade com um irmão meu e um cunhado, e permitiu que embarcasse muito antes da idade. A bordo eramos dois moços a limpar, a varrer e a baldear tudo. Com 15 anos já descia no bote e apanhei mais de 30 quintais de peixe. Um ano depois pesquei 144 quintais. Nas trinta viagens que fiz à Gronelândia, fui primeira linha portuguesa três vezes, mas no barco era quase sempre o que mais pescava. Chamavam-me o menino de ouro. Nós carregávamos o barco de bacalhau na Gronelândia e vínhamos para Portugal, mas quem não conseguisse tinha que ir para a Terra Nova acabar de pescar”.

Os mares do bacalhau, para além de gelados, eram muitas vezes atacados por nevoeiros e tempestades: “Na Gronelândia num dia de temporal o pessoal começou a mandar o peixe ao mar e a fugir para o navio, mas eu como queria sempre mais deixei-me ficar e carreguei o dóri de bacalhau. Quando regressava uma vaga de mar virou um dóri e eu nem pensei duas vezes, mandei o peixe ao mar e remei até salvar o homem. Depois, meti-lhe os remos na mão para ele aquecer até ao navio. Foi a segunda medalha que ganhei num salvamento. Entre 1939 e 1945, período da segunda guerra mundial, como fiz as viagens para o bacalhau, passando a zona de guerra, deram-me outra medalha. Houve barcos que foram abatidos durante a guerra”.

A pesca mal dava para comer e por isso muitos pescadores procuravam Fernando Rebina: “Cheguei a levar oito homens de cada vez. Houve uma altura que Matosinhos não dava para o tacho e vinham ter comigo. Ofereciam-me quinhentos escudos (2,50 euros) mas eu não precisava das pertenças deles. Para a conversa mandava-os trazer as mulheres e só lhes pedia que não me enxovalhassem no navio por serem maus pescadores. Quem sentisse que não era capaz que voltasse para as traineiras de Matosinhos. Graças a Deus, as pessoas que levei ajudaram, com o seu trabalho de pescador, a carregar o navio”.

Fernando Rebina ainda recorda a greve de 1937, que durante três meses impediu o início da campanha, em protesto contra as novas leis de trabalho impostas pelo recém-criado Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau. “O Comandante Henrique Tenreiro meteu oficiais da sua confiança nos navios que ameaçavam os pescadores e outros batiam mesmo, promovendo uma escravatura fora do comum. Quem os contrariasse chegava a Portugal, queria mudar de barco, mas ninguém lhes dava trabalho”. E conclui: “Depois de abandonar a pesca do bacalhau fui chefe da nova Lota das Caxinas. Nesta terra fui sempre respeitado e agora uma das vantagens de ter 100 anos é conhecer e falar com toda a gente”.

 

José Peixoto

 

partilhar Facebook
Banner Publicitário