Voz da Póvoa
 
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Brasil no Coração e Poveira pela Graça de Deus

Brasil no Coração e Poveira pela Graça de Deus

Vidas | 28 Outubro 2020

Maria Goretti Pinto Ramalho Vaz nasceu em 1956, na Póvoa de Varzim. É licenciada em Psicologia pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), de São Paulo, Brasil. Durante 35 anos foi Secretária Executiva Bilingue de quatro multinacionais. Aos 50 anos decidiu fazer um curso de teatro e participou como actriz em cinco peças. Colabora com a Associação Paulista Feminina de Combate ao Câncer. Orgulha-se de dizer que é filha de Fernanda Poveira e é mãe de um casal de filhos.

“O meu pai assistiu ao meu nascimento e dois meses depois foi para o Brasil. Tinha a ideia de ficar lá um ano, mas ninguém fica rico em tão pouco tempo, só mesmo o meu pai, um sonhador. Era muito habilidoso, consertava a coisa mais quebrada do mundo. No Brasil, trabalhou de sapateiro e anos depois, com dois irmãos, comprou uma padaria. A minha mãe, com nove anos, fugiu da escola e foi trabalhar na praça. Tinha o negócio entranhado nas veias, mas vontade nenhuma de ir para o Brasil. Só o fez por pressão da minha avó, que não queria uma filha viúva de homem vivo”, recorda.

A infância poveira deixou alguns restos de memória a Goretti Vaz, mas é em São Paulo que tudo começa: “Não tenho grande lembrança da menina poveira. Eu e minha mãe chegamos em Janeiro de 1962, ao bairro de Osasco, que no mês seguinte virou cidade. O meu pai conhecia-me de fotografias tiradas no Foto Neta, mas conhecê-lo pela primeira vez não foi fácil. Se há coisa que os meus pais fizeram a vida toda foi trabalhar. Por isso me meteram num colégio de freiras a estudar. Entrava às oito da manhã e saía às cinco da tarde. Tudo muito rigoroso e rígido. Foi um período da minha vida um pouco traumático, só me dava bem com a irmã Joana”.

E acrescenta: “O que eu inventava, minha mãe subsidiava. Logo no primeiro Dezembro, o Pai Natal me deu uma Sanfona e eu ia chateando fazendo barulho pela padaria. Um dia, uma professora de música que ensinava acordeão, piano e violão, instrumentos que a minha mãe acabou por me dar, entrou e viu-me naquele ensaio. Como andava enchendo o saco a toda a gente, minha mãe pagou para me ensinar música. Fui boa aluna, me formei e durante alguns anos ainda dei aulas de piano e acordeão. Sempre gostei das artes, mas sendo filha da dona Fernanda não é fácil. Voltei a esse mundo aos 50 anos. Fiz um curso de teatro de dois anos e meio e participei em cinco peças. Recordo ‘O Homem de Papel’, de Plíneo Marcos. É uma peça marcante, que trata da condição dos moradores de rua. Deixei o teatro porque a última peça que estava ensaiando tinha estreia em Agosto, mês que eu vinha à Póvoa. Avisei que nem por decreto federal trocaria a Póvoa pelo palco”.

Goretti Vaz formou-se em Psicologia, mas nunca exerceu: “Em 1979 resolvi ir um ano para Londres fazer um curso. Durante esse tempo tomava conta de crianças e morava na casa. Voltei falando bem inglês. Praticar Psicologia no Brasil, um país atrasado, onde toda a gente ia à bruxa, era sonho. A realidade trouxe-me um emprego numa empresa de perfumes, como Secretária Executiva Bilingue, do presidente. Trabalhei ainda em mais três empresas de perfumes, na última estive 18 anos, até me aposentar em 2011. Esse emprego sempre me deu uma grande estabilidade financeira”.

Ser solidário com os outros é um caminho que sempre trilhou: “Colaboro com a Associação Paulista Feminina de Combate ao Câncer. É uma organização que trabalha em três grandes hospitais. Dou o meu apoio como coordenadora na Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de São Paulo, o maior dos hospitais. Fazemos um trabalho junto ao Ambulatório de Oncologia Infantil. Pelo telefone e internet, mesmo aqui na Póvoa, resolvo vidas em São Paulo. Eu não abro mão de vir todos os anos à Póvoa”.

Para Goretti Vaz, a Póvoa de Varzim é e será sempre a sua terra: “Quando fiz 14 anos a minha mãe me mandou sozinha para visitar meus avós. A partir daí todos os anos venho à minha terra. Eu digo sempre que a Póvoa não é a melhor cidade de Portugal, mas a melhor do planeta. E não estou a brincar. Entendo que quem cá mora não dá o devido valor. Isto é um paraíso, onde um dia quero viver. Tem só um pequeno defeito, que se chama nortada e nevoeiro. O meu coração é brasileiro, mas quando me perguntam se sou portuguesa, respondo que sou poveira”.

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