Voz da Póvoa
 
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Aprender a Servir Quem Sabe Comer Bem

Aprender a Servir Quem Sabe Comer Bem

Vidas | 1930 | 30 Outubro 2019

Américo Magalhães Taveira Alves nasceu em 1958, em Ponte de Lima. Completou o antigo 2º ano de Liceu e foi trabalhar para o Hotel do Elevador, em Braga. Depois de 12 anos na Venezuela, onde se tornou empresário da restauração, regressou para investir na Póvoa de Varzim, onde abriu, em sociedade, o antigo snack-bar Vela Atlântica. Actualmente é proprietário do restaurante-petisqueira Barca. É casado com Maria do Carmo Alves e pai de um casal de filhos.

“Comecei a aprender a escola da vida muito cedo. Aos 14 anos fui para o Hotel do Elevador, no Bom Jesus, onde estive cinco anos. Era uma autêntica escola de hotelaria, com gente que tinha o gosto de ensinar. O chefe Arlindo exigia uma postura de brio profissional. Tínhamos que andar de cara limpa, asseados e aprumados. Todos os dias verificava os colarinhos e os punhos da camisa. Na questão de serviços, fiz ali toda a minha aprendizagem”, recorda.

Com os ensinamentos e a experiência adquirida, Américo Alves decidiu aventurar-se no estrangeiro e emigrou para Caracas: “Depois de me ambientar ao modo de vida dos venezuelanos, abri um restaurante, em sociedade com um amigo de Oliveira de Azeméis. Entre venezuelanos, espanhóis e portugueses, chegamos a ter mais de 40 funcionários. Na idade de trabalhar eu só precisava de gerir a casa, agora é que trabalho. Os chefes de cozinha eram espanhóis e foram eles que me ensinaram a fazer a tortilha e as empanadas galegas. A Venezuela daquele tempo também era perigosa, mas nada como é agora. A gente sentia-se como peixe na água, não faltava nada, nem dinheiro. Cheguei a vir passar férias duas vezes num ano”.

A construção de uma amizade acabou por influenciar o regresso e a vontade de investir na Póvoa de Varzim. “Conheci dois irmãos em Caracas, que tinham uma loja de pronto-a-vestir. Como a vontade era regressar, abrimos em sociedade, na Avenida Mouzinho, a cervejaria snack-bar ‘Vela Atlântica’, decorria o ano de 1993. Aí apresentamos uma novidade na hotelaria poveira, a tortilha e a empanada galega, mas bons presuntos, chouriços e morcilhas também nunca faltaram. O conceito demorou a entrar, mas com persistência e bem-servir, a casa chegou à excelência”, elogia Américo Alves.
E acrescenta: “Em 2003 decidi abrir sozinho o restaurante-petisqueira Barca, onde estava sediado o antigo café Ninã. Na Póvoa não existia uma casa de requinte e havia muito poucas casas a apostar no bom peixe e marisco, que eu proponho serem acompanhados por vinhos de excelência. Na altura a restauração poveira era francesinha e frango. Aos poucos fui ganhando uma clientela com nome. Por aqui já passaram empresários, ministros e secretários de Estado, como o Daniel Campelo ou o Francisco José Viegas. É pena não haver por aí 50 ou 100 restaurantes bons, porque isso é que chama gente. Claro que pode haver lugar para todas as barrigas e carteiras”.

Para o empresário, uma casa que se preze tem que acompanhar o que de melhor se vai produzindo: “O que faz uma casa é o produto. O cliente bem servido traz outro. É caro quando se paga e não se come. Quando se come bem e do melhor, o preço é secundário. Depois, somos um país com bons vinhos e onde todos os dias saem marcas novas para o mercado. Não é barato mas o espumante Vintage da Morganheira bate-se com o melhor champanhe francês”.

Américo Alves não herdou a profissão de nenhum familiar, mas nunca se viu a fazer outra coisa: “Gosto, acho a profissão bonita. Tive a felicidade de aprender a não atirar a lista para a frente do cliente e dez minutos depois perguntar se já escolheu. O cliente, que só sabe comer bem, tem que se sentir em casa, num ambiente acolhedor. É preciso ter gosto por um trabalho onde lidamos com todo o tipo de gente e profissões, do juiz ao simples sapateiro. Cabe aos mais velhos passar a postura e o profissionalismo aos mais novos, para não andarem com cara de frete. É sempre bom ter formação, mas é na universidade da vida que construímos o futuro. Essa ideia de viver o dia-a-dia e quem vier que pague as dívidas é a mais egoísta e irresponsável forma de vida”.

Por José Peixoto

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