Voz da Póvoa
 
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Donzília Ribeiro - Aprender a Resgatar o Tempo Perdido

Donzília Ribeiro - Aprender a Resgatar o Tempo Perdido

Vidas | 1921 | 28 Agosto 2019

Donzília da Conceição Ribeiro Martins nasceu em 1942, em Murça. Estudou no colégio de S. José, em Vila Real. Tem o curso do Ensino Básico e licenciou-se em História pela Universidade do Porto, em 1979. Nos 14 livros publicados, podemos encontrar poesia, conto, romance, literatura infanto-juvenil e investigação. A residir em Paredes desde 1969, entre outras distinções, foi homenageada pela autarquia com a placa “Honra e Mérito – Paredes Reconhece”, em 2005. Foi casada com Carlos Martins e tem um casal de filhos. “Naquele tempo pouca gente estudava. Fiz a 4ª classe e com muita pena minha abandonei a escola. A minha avó tinha um filho único, o meu pai. Eu dormia na casa dela e um dia disse-me que tinha guardado uma herança para mim, onde incluía panos de linho, ouro e algum dinheiro. Eu disse-lhe que preferia que me mandasse estudar porque o dinheiro a gente gasta e os estudos enriquecem-nos. Tinha já 13 anos e fui ter com o senhor Manuel Freitas, o professor que preparava as crianças para os exames de admissão. Na altura ficou pouco convencido, porque estava a dar explicações desde Outubro a crianças que iriam fazer exames em Junho, mas acabou por aceder ao meu pedido. Entrei em Março, fui a exame com mais três crianças e passei com uma excelente nota. Foi uma felicidade para a minha avó”, recorda. O ensino levou Donzília Ribeiro a regressar ao lugar da primeira aprendizagem: “Fui professora primária na mesma escola onde aprendi a ler. Éramos cerca de 40 alunas e quando leccionei o número era o mesmo. As mentalidades tinham mudado muito pouco e grande parte das crianças partilhava a mesma pobreza, mas gostavam e respeitavam os professores. A minha primeira escola foi em Ribeira de Pena. Ia a casa em cada três meses. No ano seguinte fui para Vale de Cunho, em Alijó. Como andava a estudar Latim, em Murça, no fim da escola as crianças acompanhavam-me pelos montes até meio da serra. Quando se avistava a minha terra despediam-se e eu fazia o resto do caminho sozinha. Antes de rumar à escola onde fiz a 4ª classe, ainda dei aulas em Fiolhoso”. Durante os 37 anos que esteve ligada ao ensino, a professora revela que foi sempre atrás do conhecimento: “O meu marido, que também era professor, concorreu a um banco e foi colocado no Porto. Eu fui dar aulas para Paredes e passei a frequentar a Universidade do Porto, onde me licencie em História e passei a dar aulas no Ensino Preparatório. Quando me aposentei, ainda leccionei alguns anos na Universidade Sénior de Paredes. Foi uma maravilha dar aulas a gente interessada e interessante”. As experiências vividas levaram Donzília Ribeiro a percorrer a estrada do ensino e da literatura: “Murça recebia a carrinha da biblioteca Gulbenkian. Em cada 15 dias levava um braçado de livros e entregava outro. Devorava tudo e sonhava ser a personagem de muitos dos livros que lia, daí germinou a escritora. Os primeiros poemas aconteceram ainda antes de fazer o exame de admissão. Os meus livros acabam por ter muita poesia, mas é o real da vida que gosto de contar. Quem escreve, sempre vai buscar estórias às pessoas. Eu tenho muitas estórias contadas nos livros que são reais. Cheguei a concorrer ao prémio literário da Fundação Luís Rainha”. A escritora define-se em poucas linhas: “Toda a escrita serve para resgatar o tempo perdido. Como os olhos das mães, que continuam a brilhar na penumbra da noite olhando os filhos, assim é a vida dos que sonham e criam escritos. Não lhes interessa chegar ao cimo da montanha. O caminhar, as descobertas da caminhada, as lágrimas e as alegrias do percurso são o bastante para os fazerem felizes. Essa é a verdadeira felicidade de quem escreve. E também a minha”. Donzília Ribeiro tem habitação própria na Póvoa de Varzim, há cerca de 25 anos, onde passa férias e alguns fins-de-semana, mas a primeira vez que visitou a cidade do Cego do Maio era ainda uma adolescente: “O autocarro parou numa zona de dunas, depois do campo do Varzim. Corri e só parei no mar. Molhei os pés, mas foi com as mãos que o quis tocar”.

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