Voz da Póvoa
 
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A Radiografia do Repórter Antes da Fotografia

A Radiografia do Repórter Antes da Fotografia

Vidas | 23 Outubro 2020

Luís Augusto Lopes Xavier nasceu em 1955, na Rua de Santo Amaro, em Vila do Conde. Fez a escola primária no Algarve e ainda frequentou durante um ano o Seminário de Faro, mas aos 11 anos veio com a família para a Póvoa de Varzim. Com o pai aprendeu a arte de electricista e de picheleiro, profissões que de forma intermitente foi executando, por conta própria, em empresas de construção civil e em fábricas. Entre 1978 e 1988 trabalhou na cabine de projecção no antigo Cine-Teatro Garrett. Nas últimas duas décadas tornou-se repórter fotográfico, tendo colaborado com todos os jornais locais. É casado com Emília Xavier e é pai de duas filhas e um filho.

“Com cinco anos fui para Amadora e depois para Estômbar, no Algarve. O meu pai trabalhou praticamente a vida toda por conta própria, como electricista e picheleiro, profissões que me ensinou. Eu frequentava a escola e ajudava-o nas obras. Quando viemos para a Póvoa fomos viver para o bairro de Barreiros e continuei a trabalhar com o meu pai. Depois fui trabalhar como fiel de armazém para a têxtil Intebis, em Beiriz. Fascinado pelos barcos, em 1973, fui voluntário para a Marinha”, recorda.

Para Luís Xavier, o serviço militar acabou por abrir outros horizontes. “Tirei o curso de electricista e fui destacado para o navio-patrulha Azevia. Depois de uma temporada nos mares algarvios regressamos à base naval e o navio foi para abater. Depois do 25 de Abril fui destacado para Alcântara, onde estava sediada a Banda da Marinha. Aí conheci um músico que me convenceu a colaborar com a Companhia de Teatro Vasco Morgado, no Parque Mayer. Passei a ter todos os fins-de-semana ocupados e quando estava de serviço na Marinha trocava com um colega. Era ajudante do contra-regra e conheci nos palcos nomes como Badaró, Camilo de Oliveira, Ivone Silva, José Viana, Nicolau Breyner, Herman José ou Raul Solnado”.

A Marinha passou a ser um entrave e embora os voluntários tivessem que fazer seis anos, em 1975 meteu um requerimento para passar à reserva: “Fiquei a viver na Amadora, na casa de um tio, e continuei a trabalhar no teatro. Como no meu trabalho assistia a todos os ensaios já sabia de cor a peça ‘Aldeia da Roupa Suja’, com o José Viana. Certo dia, o actor Luís Miguel, que contracenava com o Nicolau Breyner e era fininho como eu, adoeceu. Então, passei a fazer o papel dele nos ensaios e só não o rendi no palco porque recuperou a tempo. Na altura havia sempre um contra-regra e uma costureira que ensaiavam as revistas para, se necessário, substituir um actor”.

O regresso de Luís Xavier à Póvoa de Varzim deu-se em 1977, primeiro para trabalhar como electricista e um ano depois como projeccionista de cinema: “Andei um tempo nas obras com o meu pai, mas depois surgiu a possibilidade de trabalhar na cabine de projecção de filmes do Cine-Teatro Garrett, onde aprendi a arte com o José Pinheiro. O gerente era o senhor Geraldo. Foram dez anos a projectar e a ver cinema. A grande maioria dos filmes vinham entre quatro a oito bobines, de 20 minutos cada. Depois eram ligadas entre elas para poderem projectar mais ou menos uma hora seguida”.

E acrescenta: “Naquele tempo a sala esgotava muitas vezes, principalmente com os filmes indianos, que passavam durante cinco dias à tarde e à noite. Uma ocasião o colega na montagem fez uma troca de bobines e não deu na colagem a ordem correta. Sei que no enredo um dos personagens foi preso, de repente aparece solto e na segunda parte, depois do intervalo, aparece novamente preso e só depois apareciam os libertadores. A sessão foi à tarde e o público não reagiu, mas à noite fizemos a correcção e houve quem tivesse dado por ela e protestado. Havia pessoas que compravam bilhetes para todas as sessões. Os filmes indianos eram uma doença. Também assisti e dei apoio a muitas peças de Teatro de Revista de Lisboa, com actores que conhecia e tinha trabalhado. Recordo também o sucesso da peça de José de Azevedo, ‘Não há nada como ter um tio rico’. Foi um tempo maravilhoso que passei no Garrett”.

Até ao repórter fotográfico, há ainda uma viagem por várias profissões: “Depois de sair do Garrett fui trabalhar por conta própria, mas as coisas não correram como esperava. Acabei por fazer seis meses como electricista na fábrica de chocolates Imperial. Entre trabalhos por minha conta e lavador de carros na Renault ou motorista de feirantes fiz de tudo, até me dedicar por inteiro à fotografia, um prazer antigo. O teatro e o cinema acabaram por me empurrar para a fixação de imagens. Sempre tive a capacidade de me interessar, realizar, fazer coisas”.

 

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