Voz da Póvoa
 
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A Minha História a Dois

A Minha História a Dois

Vidas | 3 Março 2021

Em São Brás nasceu e aos cinco anos já orientava os animais na pastorícia. Aos sete foi para a escola, mas como eram precisos braços na lavoura, não foi mais longe que a 3ª classe. O pequeno sonho de ser carpinteiro concretizou-o aos 15 anos e três anos depois era encarregado. O sonho grande era estabelecer-se por sua conta e ser um homem rico. Hoje, é um empresário de sucesso.

 David José Leite conta 90 anos, dos quais 67 vividos na companhia da sua amada Maria Gomes Ferreira, conhecida em Aver-o-Mar pela “Maria do Rio”. É deste amor que a história se conta nas linhas que se seguem, retiradas da memória presente.

“Cresci rodeado de pobreza e sonhava ser um homem rico. Depois, de aprender a arte de carpinteiro e apresentar serviço, comecei a ser requisitado para uns biscates e quando cheguei a encarregado, comecei a pensar estabelecer-me. Era um jovem e sabia que tinha que arranjar namoro com uma moça com dinheiro, para me ajudar a realizar o sonho. Como tinha um vizinho amigo que era filho de um lavrador rico, comecei a acompanhá-lo nos namoricos. Sendo ele de ‘boas famílias’, notavam-se grandes diferenças entre nós, fosse nas roupas ou nas bicicletas que tínhamos. Logo cedo, as raparigas que namorávamos apercebiam-se da minha pobreza, e davam-me para trás, ora inventando desculpas para não sair comigo, ora fazendo-me partidas desagradáveis, como meter-me molhos de palha ou palhaços feitos em colmo à minha porta. Estas situações envergonhavam-me e cheguei a ponderar emigrar para o Brasil”.

A prova que os dias não são todos iguais revelou-se: “Estava acompanhado por dois amigos à saída de uma tasca, quando por nós passaram três raparigas. Um dos meus amigos falou de pronto, dizendo para as acompanhar até casa, pois já era tarde. Eu com a vergonha das rejeições das mulheres, respondi para irem eles, que eu ficaria à espera no local. Os meus amigos insistiram, pois se eu não fosse, uma delas iria sozinha, cada um escolheu a sua, deixando-me para mim a mais rica e bonita. Acompanhei-a a casa, enquanto ia falando, ela não me ligava nenhuma. Aquilo chateou-me e com o ombro, comecei a empurra-la para junto da parede, para obriga-la a sujar os sapatos na terra que os cantoneiros deixavam na valeta, quanto mais ela me pedia para afastar, mais eu me encostava. Ao chegar à porta dela, quis despedir-se, dizendo que a mãe podia ralhar-lhe. Deduziu o óbvio, que eu era pobre. Ganhei coragem e pedi-lhe um beijo que rejeitou, mas deu-me a mão para se despedir. Com o diabo no corpo, puxei-a para mim, tentando beijá-la, coisa que nunca tinha feito na vida. Ela fugiu para casa e eu vim embora muito chateado e com peso na consciência. Na verdade, ela não tinha culpa nenhuma das outras me terem tratado mal”.

David Leite ao reconhecer o erro da sua atitude procurou emendá-lo: “Precisava pedir desculpa à rapariga. Através de um amigo soube que ela todos os dias ia vender produtos agrícolas para o Mercado Municipal e que estaria para casar com um primo. Ganhei coragem e fui até ao mercado para lhe pedir perdão pelo ocorrido, mas a mulher ignorou-me e tinha toda a razão para o fazer, voltei no outro dia, dei-lhe os bons dias, mas voltou a ignorar-me. Esperei pelo sábado, pela sua saída e acompanhei-a, tentando explicar as razões que me levaram a procura-la. Como não me dirigia a palavra, disse-lhe: já sei da tua vida toda, que és rica e que vais casar com o teu primo, mas não venho aqui pedir-te namoro, mas perdão, pelo meu acto”.

E acrescenta: “Ao passarmos em frente à Basílica do Coração de Jesus, como que por milagre, a rapariga falou: já que tiveste a coragem de vir pedir desculpa, digo-te que vou casar com quem quero e não com quem a família quer. Lá por seres pobre não importa e se quiseres podes ser meu amigo. Depois, de ter o seu consentimento, acompanhei-a até casa. Assim começou o nosso namoro”.

Por: José Peixoto

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