
Haverá sempre um antes e um depois. Uma revolução escolheu o depois, é por isso que em democracia há sempre uma primeira vez, mesmo que a espera seja longa. Na Póvoa de Varzim aproximou-se do meio século até que uma mulher fosse eleita pelos poveiros, Presidente da Câmara Municipal, a 12 de Outubro de 2025.
Andrea Luísa Neiva Maia da Silva nasceu na Póvoa de Varzim em 1979, é licenciada em Relações Internacionais, Culturais e Políticas pela Universidade do Minho. Fez quatro mandatos como Vereadora e actualmente assume a cadeira da presidência da Câmara Municipal.
Embora tenha por trás uma grande experiência autárquica ser Presidente é ficar com o poder de decisão: “É sempre diferente daquilo que imaginamos. Porque, na verdade, uma coisa é fazermos parte de uma equipa, respondermos a alguém. Outra coisa é quando somos nós a tomar a dianteira dos processos e temos que, se calhar, organizar as coisas um bocadinho mais à nossa maneira. Portanto, é sempre uma novidade, apesar de tudo, estar na liderança e ser a última responsável pelas coisas que acontecem, de bom e de mau, saber que, efectivamente, sou eu quem dá a cara por tudo aquilo que acontece no município”.
Nestes primeiros seis meses conseguiu pôr em prática as espectativas do executivo? “Eu tinha bem estabelecidas quais eram as prioridades que tinha elencado e quais seriam as minhas primeiras intervenções, fruto daquilo que eu tinha ouvido durante a campanha eleitoral, e que se prendiam com a intervenção e manutenção do espaço público, com a falta de iluminação pública que existia, e foi exactamente por aí que nós começámos. Existem, naturalmente, outras intervenções mais profundas ao nível das infraestruturas, que eu também sabia que eram necessárias, nomeadamente nas escolas, e nas quais estamos a fazer um plano de intervenção contínua para que nestes próximos três anos e meio possamos levar a cabo todas essas intervenções”.
E acrescenta: “Aparece sempre pelo caminho uma outra coisa que se torna mais urgente fazer. Eu acho que equilibradamente estamos a conseguir fazer aquilo que eu disse no meu discurso de tomada de posse, que é cuidar da cidade, e cuidar da cidade é cuidar das pessoas também”.
Ao nível das intervenções urgentes, o parque escolar era já uma prioridade? “Sim, nós tínhamos dois projectos, nomeadamente a Escola EB1de Refojos e a Escola EB1 de Cadilhe – Amorim. Dentro em breve deverão sair os procedimentos para os arranjos nessas escolas que já estavam identificadas. No entanto, fruto também do inverno rigoroso que tivemos, percebemos a urgência de intervir em dois pavilhões escolares, o pavilhão da EB2,3 Cego do Maio, e no pavilhão da EB2,3 de Rates. Iremos também construir um pavilhão, mas também fazer uma intervenção na escola EB de Agro Velho, em Aver-o-Mar. Fizemos uma primeira intervenção no telhado que nos parece ter resolvido a questão da infiltração existente, mas agora temos no edifício”.
Numa política que diz ser virada para as pessoas, os Centros Ocupacionais vão ser uma realidade em cada Freguesia? “A nossa intenção é essa, porque sentimos verdadeiramente a felicidade das pessoas com mais idade terem novos projectos de vida. Já tinha anunciado, ainda como vereadora de Acção Social, a criação do Centro Ocupacional de Argivai, uma obra que arranca na próxima semana. Será mais um passo, mais uma freguesia. E esse é o caminho a seguir, criarmos condições para que as pessoas, nas suas freguesias, possam ter equipamentos de excelência que lhes permitam passar o dia, conviver, evitar o isolamento social. Em todos os centros ocupacionais temos criado sempre algumas novas valências. Na Estela, onde criámos a primeira creche pública no concelho, abrimos uma sala Snoezelen (espaço multissensorial) que permite criar um ambiente terapêutico e que servirá, naturalmente, todos os outros centros ocupacionais, mas também permite contactos intergeracionais com a Creche, com outras escolas, será mais um equipamento ao dispor da comunidade. Portanto, todo esse contacto acaba por se transformar em experiências muito gratificantes tanto para os mais pequenos como os mais idosos”.
Creche e um Jardim de Infância Públicos no Centro da Cidade
“Já Temos o financiamento aprovado. Foi uma candidatura que fizemos, e do ponto de vista da eficiência energética já está também aprovado, pelo que as obras no antigo edifício da Obra de Santa Zita que a Câmara adquiriu arrancarão em breve. A ideia será criar uma creche aqui no centro da cidade, creche e jardim-de-infância. Teremos que actualizar e adequar o edifício às condições que a Segurança Social exige. Mas será possível, entretanto, fazer-se esse enquadramento e passar para lá, também, alguns dos serviços da acção social e educação, que estão situados no edifício do antigo quartel, que deverá depois ficar reservado para criarmos melhores condições para a Polícia Municipal e para os outros serviços que lá existem”. Independentemente das apostas do município, “nunca deixaremos de apoiar as IPSS do concelho sempre que solicitados”.
Todas são importantes mas o MAPADI é uma instituição especial: “E há-de ter sempre este carácter especial pelo tipo de apoio que presta e que será cada vez mais necessário. Temos, neste momento, cerca de 500 meninos com necessidades educativas especiais, nas suas mais variadas vertentes, limitações que transformaram as nossas escolas. Nunca tivemos um quadro como aquele que temos actualmente. Estes meninos vão crescer e precisar de respostas semelhantes às do Mapadi, um dia terão que ter um apoio contínuo para que seja possível os pais terem alguma perspetiva de futuro para os seus filhos. São muitos mais aqueles que vão continuar a sair das nossas escolas e do ensino obrigatório, e que terão que ter uma resposta, neste caso, também do Instituto da Segurança Social. Sei que o Mapadi tem feito um esforço grande para que lhes permitam abrir mais vagas, até porque existe espaço para isso, terá que continuar a ter apoio do Município e a crescer naquilo que é a sua actividade”.
O apoio e participação do município em alguns Fóruns relacionados com a saúde mental é um ‘sintoma’ de alerta? “Há realmente necessidade de estar mais atento às questões da saúde, fundamentalmente, mental. Por isso, sensibilizar e promover a formação para ajudar os cuidadores informais, mas também para que saibamos lidar com uma realidade que é cada vez mais presente. Recentemente passámos a fazer parte de uma rede europeia em saúde mental que nos irá permitir, também, ter uma intervenção mais próxima da comunidade. Estamos muito atentos e sensibilizados para a necessidade de ajudar as pessoas a reconhecerem sinais”.
Quanto às obras aprovadas por sucessivos Governos no Hospital da Póvoa de Varzim, a espera vai continuar? “Temos estado a insistir com o Ministério porque sabemos que falta apenas vontade política para que isso se concretize. Já existem todas as condições necessárias para o projecto avançar. E será importante a unidade de psiquiatria, de que se fala tanto, e que existirá neste novo edifício. Foi um acrescento que se fez, mas que eu acho, sem dúvida nenhuma, que será uma mais-valia”.
A falta de habitação, os preços das casas que continuam a crescer tem sido um problema que atravessa o país de Norte a Sul. Da Estratégia Local de Habitação resultou a construção de novas habitações a preços controlados que o município entregará em breve: “Recebemos mais de 300 candidaturas para 104 habitações. Depois de entregues os documentos, é indicado um número, depois a documentação é inserida na plataforma informática que atribui uma pontuação e formada uma lista de pessoas. Durante o próximo semestre, esperamos entregar as 104 habitações que ficarão concluídas. É um passo importante, mas não fica por aqui. Temos mais 72 habitações para jovens, para os quais iremos iniciar um outro processo diferente, porque as características são também ligeiramente diferentes. É uma habitação não social, mas de rendimento acessível para jovens, e que dará resposta a quase 200 famílias na Póvoa de Varzim. Sabemos que não é suficiente, que é preciso mais. Este é um problema a nível nacional. Vamos continuar neste caminho para podermos promover cada vez mais e melhor habitação para todos”.
Construir mais é uma possibilidade que dependerá sempre de eventuais candidaturas a fundos europeus: “Estaremos sempre atentos ao facto de podermos voltar a ter uma oportunidade, como foi esta Estratégia Local de Habitação, para promover mais habitação. Estes programas sem apoio de fundos comunitários são muito difíceis de executar pela dimensão financeira que têm, por isso, vamos continuar atentos a eventuais candidaturas que surjam”.
Investir na Recuperação das Vias de Comunicação do Concelho
“Durante este último inverno, que coincidiu com o início do mandato, existia um procedimento, que já estava em curso, de remendos em várias vias que estavam em mau estado. Mas, na verdade, o tempo não permitiu que elas consolidassem, e houve algumas vias que não ficaram suficientemente bem resolvidas. Esperámos que o tempo melhorasse, voltámos a remendá-las, mas isto ainda fazia parte de um procedimento do mandato anterior. Neste momento temos elencadas uma série de vias que precisam de uma intervenção mais profunda, uma intervenção que vai exigir um concurso público da parte do município. Trata-se de um montante considerável, porque são muitas as vias que vão precisar de uma intervenção total. Estamos a prever que, durante o próximo ano, possamos ter condições para executar todas essas vias identificadas”.
Quanto ao nó da A7 continua por desatar, mesmo com o Santuário da Beata Alexandrina a avançar a bom ritmo? “O nó, infelizmente para nós, ainda não desatado. Ainda recentemente eu, o Presidenta da Junta de Balasar, Marco Silva, a Deputada na Assembleia da República, Carla Barros, reunimos com o Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, mostrámos-lhe imagens das avançadas obras no Santuário e fizemos um pedido no sentido de nos ajudar a concretizar e, finalmente, desatar o nó. O Ministro solicitou-nos algumas informações e estamos a reuni-las para serem enviadas. Esperemos que seja possível, ainda durante este mandato, conseguir concretizar o nó da A7. Sabemos que a concessionária tem todo o interesse nisso”.
A programação do ‘Póvoa ao Ar Livre’ que se realiza numa tenda junto ao Cais vai manter-se: “É uma receita importante para as próprias associações poderem funcionar e não dependerem tanto dos apoios financeiros da Câmara Municipal. Tem o apoio logístico, mas depois elas têm todo o trabalho e organização dos eventos. Efectivamente, é algo que as associações muito valorizam”.
Há quem considere que afecta a restauração, mas para Andrea Silva são públicos diferentes: “Temos turistas que nos visitam e nem sequer sabem que a tenda lá está e utilizam a nossa restauração. Temos aquelas pessoas que fazem parte ou que são familiares de alguém que participa, que organiza, outras pessoas que por solidariedade querem participar e ajudar. Acho que aquilo que lá se serve é muito diferente daquilo que a nossa restauração tem para oferecer. Os públicos são diferentes. Dou como exemplo os fins-de-semana gastronómicos que tivemos há pouco tempo, que embora se organizem há vários anos penso que foi dos mais participados de sempre e com pessoas de várias localidades do país que nos procuraram para saborear, entre outros pratos, a Pescada Poveira, ou a nossa rabanada. Atraindo mais pessoas, com a Póvoa de Varzim a voltar a estar na moda, conseguimos que haja público para todos”.
Os Dias no Parque mantiveram uma participação muito activa das dezenas de Associações concelhias. Quanto aos convidados a subir ao palco sentiu-se uma maior proximidade com o evento e as pessoas: “É já um momento muito importante na Póvoa de Varzim e é algo que dá, efectivamente, muito trabalho a montar, e a criar condições no parque para que se possa usufruir daqueles dias. Mas, é um momento de encontro e de convívio da comunidade poveira. Este ano decidimos fazer algo diferente e trazer alguma novidade. Até porque Os Dias no Parque serão sempre interessantes se existir alguma novidade. Este ano apostamos num programa muito familiar, que atravessou as várias gerações e faixas etárias. As opções são de quem governa e há sempre um cunho pessoal, sem denegrir nada do que está para trás”.
Das acusações de fiasco a uma programação que começa a surpreender, o Póvoa Arena vai conseguir impor-se como sala de eventos e espectáculos? “Eu sabia que era um equipamento com muito potencial. Hoje em dia, todos nós queremos que as coisas aconteçam muito rápido. Isto é fruto da vivência que temos das redes sociais, do imediato, das coisas que têm de ser feitas para ontem, mas tudo demora o seu tempo. O Póvoa Arena só teve um regulamento a partir do mês de Novembro. E começámos logo a dinamizá-lo em Dezembro, a partir do momento em que ele tinha condições para funcionar em pleno. Acho que este é um equipamento que tem de ser dado a conhecer, não só aos poveiros, mas a todos os promotores e a todos aqueles que nos visitam. Vai ter o seu tempo para virar uma casa de espectáculos, como é a Casa da Música, o Super Bock Arena, todos os pavilhões que têm este tipo de eventos. Já passaram quase 30 mil pessoas por aquele espaço nestes poucos meses”.
Há uma questão que os poveiros querem ver respondida que tem a ver com o impedimento de circulação de veículos automóveis na Avenida dos Banhos durante a época balnear: “Costumava ser durante toda a época balnear, mas este ano a marginal vai fechar apenas durante os meses de Julho e Agosto, nos dias de chuva, como é óbvio, não haverá necessidade de estar fechada. Durante os meses de Julho e Agosto irá estar encerrada em cada fim-de-semana, no período de sábado das 14h00 até à mesma hora de domingo. Ou seja, nós criamos um modelo híbrido, um modelo que sirva ambas as vontades e que permita, por um lado, no sábado à tarde, criarmos animação e atractividade na marginal, para que as pessoas possam usufruir dela, e ao domingo de manhã, segundo pudemos observar, normalmente, é um período em que muita gente pratica desporto, daí o encerramento da marginal durante a manhã até às duas da tarde. A partir daí, a circulação será aberta”.
Para Andrea Silva, depois de um debate alargado entre os prós e os contras, este será um teste para tirar ilações para o futuro: “É o primeiro ano para todos e, portanto, vamos ver como é que corre esta decisão. Quero, no entanto, ressalvar que para equilibrar esta decisão do ponto de vista daquilo que é a sustentabilidade ambiental e para que isto seja possível acontecer, nós fomos tomando algumas medidas ao longo destes últimos meses que nos permitem fazer este equilíbrio. Uma delas é a substituição que estamos a fazer de mais de 5 mil luminárias por luminárias LED que nos permitirão, se por um lado permitimos que carros passem na marginal num período mais alargado, por outro lado, fazemos o equilíbrio com decisões como esta, por exemplo, da questão da mudança da iluminação de halogénio para a iluminação de LED, em grande parte do concelho”.
Homenagear as Juntas de Freguesia é Homenagear o Poder Local
“Foi uma escolha e decisão pessoal retirada da minha forma de ser e de estar na vida. O normal é fazer homenagens a pessoas e tínhamos várias, mas também instituições ou empresas. Mas, este ano celebram-se os 50 anos de Poder Local, e para mim faz todo sentido desta vez fazer uma homenagem colectiva a todos os poveiros, a todas as Juntas de Freguesia e a todos os autarcas que por lá passaram neste meio século de democracia, a todos nós que fazemos a Póvoa de Varzim todos os dias. Eu acho que a minha missão na autarquia é servir os poveiros no seu todo, de melhorar aquilo que eu puder na vida e na gestão da cidade para que todos possam ter mais qualidade de vida”.
Sem maioria no executivo a oposição obriga a um diálogo que não existia e a cedências, mas Andrea Silva reconhece que ninguém tem que estar sempre de acordo: “Esse é um princípio democrático básico e eu respeito. Respeito as opiniões. Às vezes, tenho alguma dificuldade em entendê-las, porque o meu ponto de vista, obviamente, é muitas vezes diferente daquele que me apresentam. Mas, eu acredito que algumas vezes seja por desconhecimento, isto da forma como as coisas acontecem. Tenho tido a capacidade de acolher as propostas que possam ser interessantes e que contribuam de forma positiva para a Póvoa de Varzim e para os poveiros. Temos gerido umas vezes mais de acordo com a Aliança Poveira, umas vezes mais de acordo com o Partido Chega, dependendo daquilo que são as posições em diversas matérias, mas temos conseguido, penso eu, ir levando esta carta a Garcia”.
Este ano o Correntes d’Escritas não entregou o principal prémio literário apoiado pelo Casino da Póvoa porque esteve em jogo a nova concessão. No entanto a Presidente acredita que o prémio voltará já na próxima edição: “O Grupo Barrière chegou à Póvoa de Varzim para assumir a concessão do Casino há pouco tempo, pouco mais de um mês. Aliás, a abertura oficial será a 18 de Junho. Nós temos conversado, percebo que o grupo ainda está a conhecer a nossa realidade. Mas, registo que existe uma grande sensibilidade para a questão da cultura e das artes. Portanto, parece-me que eles estarão disponíveis para continuar a colaborar connosco neste caminho. Estarão abertos a criar espaço para que as associações do concelho, por exemplo, possam usufruir quer do Salão d'Ouro, quer dos eventos que o Grupo Barrière possa lá organizar. Eu estou com muitas esperanças de que esta vontade e este gosto pela cultura e pelas artes possa redundar no apoio ao prémio literário”.
O que é que podemos esperar de Andrea Silva como Presidente de Câmara nos três anos e meio que faltam para completar o mandato? “Em todos os anos que passei aqui, o maior elogio que me fizeram foi dizerem-me que eu nunca deixei de ser a pessoa que era. Espero continuar este caminho de muito trabalho, mas também de orgulho, e que as pessoas possam, daqui a três anos e meio, olhar para trás e dizerem que valeu a pena terem acreditado em mim. Acreditem que vamos fazer o melhor pela Póvoa e pelos poveiros”.
Por: José Peixoto
Fotos: Rui Sousa