
Deixo-vos com uma conversa no lançamento do livro "O meu nome é Legião" na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto.
O Meu Nome é Legião, é o título do último livro de António Lobo Antunes, que foi apresentado na Biblioteca da Póvoa de Varzim no passado dia 28 de Novembro. António Lobo Antunes nasceu em Lisboa em 1942, é licenciado em Medicina e especializado em Psiquiatria, mas há mais de duas décadas que se dedica apenas aos livros. Com a publicação em 1979 dos seus dois primeiros livros, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, inaugura um percurso literário que se estende pela edição de 22 livros, três dos quais de crónicas, tendo sido reconhecido com mais de uma dezena de prémios nacionais e internacionais, entre os quais: o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, 2000, o Prémio União Latina, 2003 e o prémio Camões 2007.
Para António Lobo Antunes, os livros dão muito trabalho: “escrevo lento e com grandes dificuldades. Até acertar no caminho do livro, escrevo sete ou oito primeiros capítulos, todos diferentes, mas as primeiras duas ou três horas perdem-se, o livro não sai. Quando chega o cansaço, ouço vozes, organizo-as e começo a escrever, é como se conseguisse dentro de mim um estado próximo dos sonhos, fico com a sensação de ter descoberto os segredos da vida e do mundo. Depois o livro tem a sua vida, é ele que decide quando acaba”.
O livro para o escritor é uma coisa tremenda que provoca sentimentos contraditórios. O acto da escrita vai engolindo o tempo e as horas, mas é preciso interromper e saber retomá-lo no dia seguinte. “Deixo uma frase sem pontuação e às vezes deixo a frase a meio e até a palavra a meio, para no dia seguinte melhor lembrar o que estava a escrever. Escrevo à espera da palavra e quando a palavra vem é uma festa dos sentidos e da inteligência. Na escrita uso as palavras como sons, a mim não me interessa nada contar estórias nem criar personagens. A estória é secundária, são os sonhos, as sensações, os pensamentos, todo o mundo interior, é isso que me interessa”.
António Lobo Antunes não acha forçoso que dois e dois sejam quatro, já que também um livro é discutível. “Tudo depende da forma como fomos educados. Quando andava no liceu, tive professor de matemática, que me perguntou se era verdade que dois e dois são quatro e eu disse que o facto de dois e dois serem quatro dependia da velocidade do vento. O professor expulsou-me da aula e chamou o meu pai. Ainda hoje não acho que dois e dois sejam quatro e é claro que para um milionário dois e dois são vinte e dois. Porquê que tenho que aceitar como válido que o rio Tejo nasceu numa serra em Espanha, que nunca vi, porque não na serra de Cintra... Estas coisas passam-se nos livros”.
Os grandes livros são como os grandes poemas, são diferentes sempre que os lemos. “Eu não estou preocupado que me leiam. Os meus livros são para os leitores escreverem. O que me interessa é que os meus leitores sejam tão bons como eu. Ler é um acto tão criativo como escrever. Não me interessa seduzir o leitor, ler é um acto criativo sempre em evolução. Os grandes livros estão cheios de silêncios, e nós conseguimos comunicar através do silêncio, as palavras tornam-se desnecessárias”.
Sobre a anormalidade no acto de criar, António Lobo Antunes, questiona, quem é que decide quem é normal... “Quando trabalhava no hospital, as coisas mais criativas que ouvi foram ditas pelas pessoas que estavam internadas. Lembro-me uma vez, em estava a arrumar o carro, aproximou-se de mim um homem com um ar estranho e disse - sabe senhor doutor o mundo começou a ser feito por detrás. Eu achei aquilo extraordinário, porque de facto se queres escrever tens de escrever por trás, com o teu próprio sangue”.
Quanto ao prazer de um livro, “é quase como um orgasmo”. O Meu Nome é Legião: “Legião quer dizer muitas. Na beira alta ainda se usa este termo, uma legião de pessoas”. Para a morte tem esta resposta: “Só sentimos verdadeiramente a falta quando somos nós a abrir a porta”.
José Peixoto
28 Novembro 2007
Foto: António Lobo Antunes na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto em 2007, com Luís Diamantino - Vereador do Pelouro da Cultura - à data, no lançamento do livro "O meu nome é Legião".
Foto de ALA - Rui Maio Sousa