Voz da Póvoa
 
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José de Azevedo e as Rusgas de São Pedro

José de Azevedo e as Rusgas de São Pedro

Pessoas | 30 Junho 2022

 

Precisamos recuar 60 anos para perceber como reacenderam as festas em honra de São Pedro, o pescador. A Póvoa de Varzim era ainda uma Vila a olhar o mar das suas térreas casas, mas com muita vontade de abrir as portas ao sonho. Um jovem, entre outros, sem receio do futuro alinhou os astros e, dias depois do Solstício de Verão, da Lapa ao Castelo o São Pedro ao ombro dos pescadores regressava do abismo de uma tragédia para dar as boas vindas aos poveiros.
 
 José António Ribeiro de Azevedo nasceu a 1 de Junho de 1935, no Lugar da Poça da Barca, em Vila do Conde “a quatro casas da Póvoa de Varzim”. Fez a instrução primária no Colégio de D. Nuno, o secundário até ao 5º ano no Liceu Nacional da Póvoa de Varzim e 6 e 7º (actual 12º ano) nos colégios Araújo de Lima e Almeida Garrett, no Porto. Foi membro da Comissão de Iniciativa e Turismo de 1962 a 1974, Vereador do Pelouro de Turismo entre 1976 e 1978, e de 1978 a 1980 ocupou o cargo de Presidente da Câmara da Póvoa de Varzim. Entre outras honrarias, em Junho de 1995 é distinguido com a “Medalha de Prata de Cidadão Poveiro”.

“Quando comecei a trabalhar, concorri à Marinha e fui colocado no Ministério da Marinha em Lisboa onde permaneci dois anos. Tive a felicidade de ver as marchas de Santo António e imaginei que aquele despique, aquela animosidade que havia entre os bairros de Alfama e Moraria se identificava no bairro Norte e no bairro Sul. Um dia o Presidente da Câmara, Comandante Barros Lima, com quem nutria uma grande amizade, disse-me que a Póvoa precisava de uma festa diferente da Senhora da Assunção. Como na minha cabeça andavam a dançar as marchas de Lisboa, numa reunião com o presidente e o seu executivo, do qual fazia parte o vereador do Turismo, Rodgério Viana, propôs que se ressuscitassem, 80 anos depois, as festas do São Pedro. A proposta foi aceite e a Câmara prontificou-se a pagar o que fosse preciso. Para o efeito foi criada uma Comissão de Iniciativa e Turismo”, recorda. 

As primeiras festas de São Pedro foram organizadas pela Comissão de Iniciativa e Propaganda da Póvoa de Varzim, da qual faziam parte Rodgério Viana, José de Azevedo, António Augusto (Ourivesaria Gomes), António Duarte, Aparício Mariz, Artur Monteiro do Café Povoa-Cine onde se reunia a Comissão. 

Colaboraram directamente com a comissão, as irmãs Maria Martins da Costa e Ana Martins da Costa (proprietárias de uma casa de vestir Anjos, junto à igreja Matriz), António Milhazes (Ourivesaria Milhazes), José Marques (Concha Azul), Mário Areias e António Gomes (fundador do coro Capela Marta). “É claro que o António tinha que levar a Capela Marta a cantar no São Pedro”.

José de Azevedo apresentou à Comissão um programa ambicioso, mas que recebeu aprovação de todos: “Em primeiro lugar ‘O Cortejo do Mar’ com a população poveira e de Aver-o-Mar a ter uma adesão que ultrapassou todas as expectativas que tínhamos. Os figurantes, mais de mil, apareceram com os trajes e ornamentações mais populares da tradição de cada bairro. Foi um sucesso nacional, em todos os jornais da época se fez notícia. No segundo ano, participaram no Cortejo do Mar gentes de toda a orla costeira do país e foi presenciado pelo Presidente da República, Américo Tomaz. O cortejo começou junto ao Estádio do Varzim e fez o percurso até à Lapa. Terminava junto à igreja porque ali se realizavam as festas de São Pedro até ao naufrágio de 27 de Fevereiro de 1892, que vestiu de luto toda a comunidade piscatória poveira e não só. Com a tragédia acabaram as festas. A festa concentrava-se apenas na Lapa onde se faziam fogueiras e ornamentava-se aquela zona. O Santo que veio para a Póvoa há dois séculos atrás foi o São Pedro Claviculário do Céu, era quem tinha as chaves do céu e punha lá os pescadores. No renascer das festas como estávamos a homenagear a pesca, tinha que ser o São Pedro Pescador”.

E prossegue: “Convidei o Dr. Nuno Simões, um escritor conhecido, para falar do Poveiro e da sua tradição. O Artur Aires cedeu o Salão Nobre do Casino, que encheu. O cortejo religioso saía da igreja da Lapa até ao Castelo (Fortaleza) onde estava a figura do Santo e a fogueira. No exterior do Castelo, fizemos um anfiteatro em madeira para representar cenas da vida poveira, escritas por mim: a peste, o naufrágio ou a consagração do Cego do Maio. Queria que os poveiros soubessem alguma coisa da história local. Nesse mesmo anfiteatro, foi organizado o Festival da Canção Poveira. Quem ganhou foi o Dr. Énio Ramalho, com a canção ‘Saudades do Mar’. Pedi também ao professor Fernando Barbosa que fizesse uma exposição bibliográfica sobre autores da Póvoa de Varzim, que foi realizada no Salão de Teatro do Casino, que viria a ser demolido e transformado em Salão de Jogos. Foram organizados concursos de fogueiras, arraiais, tronos e rusgas. As ornamentações eram artesanais e feitas pelos populares do bairro. Depois veio a vaidade com a rivalidade e cada qual fazia o melhor possível. As festas de São Pedro duravam três dias, de tal forma foram vividos que acabaram por entrar no ADN da Póvoa”. 

As Rusgas dos Bairros São a Raiz que Segura a Tradição 

Famalicão festejava o Santo António, Braga, Porto e Vila do Conde o São João, e a partir de 1962 a Póvoa de Varzim volta a sair à rua para festejar o São Pedro. No entanto, convém lembrar, que no Largo do Cidral, as gentes do bairro da Matriz também dançam com o seu Rancho na noitada de Santo António, mas o São Pedro enraizou-se de tal forma que em Janeiro de cada ano os bairros já só pensam na festa. 

“No primeiro ano tudo foi vivido com um entusiasmo doido. Toda a gente se envolveu na ornamentação dos seus bairros com apetrechos de pesca, colchas nas varandas, tudo o que podia embelezar a rua. As festas eram económicas, na verdade, a Câmara também não tinha muito dinheiro para gastar. Participaram quatro bairros, o Norte, o Sul, a Matriz e o Castelo, este último apenas no primeiro ano. Pedi aos bairros que fizessem as rusgas com música do António Marta e com uma letra que já existia da tradição. Depois, em cada ano, cada bairro passou a apresentar uma rusga original. Eu próprio escrevi para o Sul porque morava naquele Bairro, mas não tinha facção doentia. Escrevia porque gostava das festas e do êxito que tinham”.

José de Azevedo explica que “para distinguirmos umas das outras, as rusgas designavam-se por Rancho das Tricanas da Lapa, Rancho das Tricanas do Norte e o Rancho das Tricanas da Matriz. O Rancho do Castelo durou um ano, dizia-se que era um racho de gente fina. As cores dos bairros são as mesmas de hoje, Matriz vermelha, o Sul verde e o Norte azul. As blusas das componentes das rusgas começaram a ser cada vez mais sofisticadas e com decote, as pescadeiras não gostavam de mostrar o corpo, mas nas rusgas aceitavam fazê-lo. Na verdade, com o tempo tudo se embelezou”.

E recorda: “No tempo em que a exibição dos três bairros, Norte, Sul e Matriz, era na Praça de Touros, chegou-se a organizar um concurso entre as rusgas que cada um apresentava. O concurso realizou-se apenas um ano. Havia uma certa vigarice com a compra de votos. Penso que está muito bem assim, o povo sabe sempre quem é o melhor e o melhor é o seu bairro, mesmo agora que temos o Regufe, a Mariadeira e o bairro de Belém, que surgiram exactamente por esta ordem”.

Para o principal mentor das festas de São Pedro, “em nenhum documento antigo há qualquer referência às tricanas poveiras. Acontece que as raparigas que trabalhavam nas modistas, quando levavam a obra feita às clientes, transportavam-na dentro de uma caixa e iam todas arranjadas, porque trabalhavam na modista e convinha expor uma certa vaidade, vestindo umas saias justas e blusas rendadas. A partir daí, os transeuntes que as viam e apreciavam, começaram a chamar tricanas a essas moças que se apresentavam mais bem vestidas que as pescadeiras”. 

O Mundo Avança mas a Tradição Fica de Lembrança 

“Era do meu entendimento que as festas do São Pedro, as fogueiras, os arraiais, não se realizassem num local próprio, mas sim na Póvoa inteira e até nas freguesias vizinhas, como Aver-o-Mar ou Argivai. E isso aconteceu, em todo o lado se fazia a festa de São Pedro. Penso que era no país a única ou das poucas festas que não se restringia a um lugar ou local do culto. Durante muitos anos, os bairros ofereciam sardinhas às pessoas sem cobrar nada. Geralmente na frente da garagem ou da porta de casa, punham um tabuleiro de sardinhas e raia, e engatavam quem passava que era quase obrigado a comer uma sardinha no pão e a beber um copo de vinho, oferta da casa. Era uma festa em que não se gastava dinheiro, comia-se e bebia-se sem conta”, recorda.

O crescimento das Festas de São Pedro ultrapassou o imaginado: “No segundo ano, convenci-me que estava construído o futuro do São Pedro na Póvoa. A rivalidade cresceu de tal forma que só faltou andar à paulada. Hoje é uma rivalidade sadia, mas não foi sempre assim. No Norte o fanático era o Bento Serrão, no Sul o Luiz Postiga, na Matriz era o Isidro Ferreira e o velho Quilores. Recordo que a Matriz não tinha imagem do São Pedro, mas havia no Museu um quadro da ceia dos apóstolos, então o Quilores vestiu um deles de São Pedro e colocou-o no trono da Matriz. Hoje, creio que o santo pescador tem orgulho nos poveiros”.

José de Azevedo nunca foi candidato, diz que a presidência da Câmara lhe caiu na obrigação: “O Presidente era o Tenreiro Carneiro, casado com uma senhora da ourivesaria Gomes, que entretanto faleceu. O viúvo apaixonou-se por uma brasileira e foi para o Brasil. Como a Câmara ficou sem presidente e eu era vice-presidente, a vereação exigiu que tomasse posse e passei a exercer o cargo. Eu tinha a lição do Tenreiro Carneiro e sabia os meandros da governação. Fui a Lisboa com o António de Vasconcelos, do partido Socialista, tratar da construção do Mercado. O Governo Socialista queria que fizéssemos o mercado na Praça do Almada em frente à Câmara, mas recusamos. Com o arquitecto Campos Matos acabámos por fazer o Mercado Municipal na Praça Marquês de Pombal. Fizemos também um arranjo no Bairro dos Pescadores, que recentemente voltou a ser recuperado”.

Para além de colaborar em vários jornais nacionais e locais, foi Director d’A Voz da Póvoa, José de Azevedo publicou vários livros sobre a história e etnografia local: “Nasci em Vila do Conde a 4 casas da Póvoa. Os fregueses da minha mãe eram pescadores, os meus amigos de infância eram os filhos dos pescadores. Ficou-me na cabeça que um dia iria contar a vida deles. Podia ter escrito muito mais porque estive nas duas capitanias, da Póvoa e da Vila, mas a minha preguiça foi tal que passou despercebida, embora tenha abraçado alguma coisa. Foi o Manuel Lopes que me convenceu e incentivou a publicar o primeiro livro. Na altura, escrevia no JN, histórias da Póvoa. Está aí um livro na porta de saída ‘A Póvoa no seu Melhor - crónicas do tempo que passa’. Eu escrevo com muito amor mas com humor também”.

Por: José Peixoto

 

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