
Ninguém melhor que as pessoas da sua vivência, da sua amizade, da sua partilha, para descrever a Cristina Gomes. Por isso, publicamos esta homenagem assinada pela Direccção do Centro de Desporto e Cultura JUVENORTE, Rancho Estrela do Norte, em suma, O Bairro Norte.
No anoitecer deste terceiro dia de luto oficial, além dos imensos e inesquecíveis momentos feitos registos fotográficos, partilhamos com todos as derradeiras palavras da merecida vénia e reconhecimento do Bairro Norte à Cristina Gomes.
"O Bairro Norte e a cidade da Póvoa de Varzim ficam agora irremediavelmente e eternamente mais pobres.
Apartamo-nos hoje, apenas fisicamente, da Cristina Gomes. Nome pronunciado com ternura, rosto familiar a todos quantos vivem e sentem o Bairro Norte, presença que ficará de modo indelével ligada à história viva da associação representativa do Norte da cidade da Póvoa de Varzim.
Nasceu “Poveirinha Pela Graça de Deus”, no coração do Bairro Norte, e cresceu na Rua de António Graça. Filha orgulhosa do distinto Senhor Adélio e da saudosa D. Dores do Adélio, corria-lhe nas veias total ascendência Poveira, com raízes profundas no Norte da cidade, onde honrou a sua génese e fez questão de viver com carácter vincado e bondosa índole grande parte da vida.
Tricana briosa e imponente do Norte Poveiro, foi dedicada componente da Rusga do Bairro Norte e do Rancho Estrela do Norte, que representou – e quão bem o fez – em centenas de exibições ao longo de décadas, sempre com porte e brio e com um sorriso luminoso, que naturalmente granjeavam a admiração de quantos a viam em palco.
Foi ensaiadora da Rusga Infantil durante treze anos. Acompanhou com desvelo as gerações mais novas do Bairro, crianças e jovens que ainda hoje guardam consigo muito do que com ela aprenderam, estamos certos. Soube incutir-lhes o amor ao Bairro Norte, o respeito pela tradição, o orgulho em vestir o Azul e Amarelo e o brio com que se representa o Norte Poveiro. Fê-lo pelo exemplo e pela exigência, com a naturalidade de quem sempre viveu o bairrismo do Norte por dentro, conhecendo minuciosamente toda a sua mística e identidade.
Sócia activa, colaboradora incansável e amiga leal do Centro de Desporto e Cultura JUVENORTE, a Cristina foi, acima de tudo, alguém que se deu por completo e sem quaisquer reservas. E, ainda que nunca tenha integrado formalmente os corpos directivos da associação, acompanhou sempre de muito perto e de forma proactiva o quotidiano da JUVENORTE, num verdadeiro e sentido vestir de camisola, de Estrela ao peito. Anos a fio, foi a tempo inteiro muito mais do que secretária. Na verdade, fazendo-lhe a devida justiça, foi um pilar fundamental da associação que serviu de forma solícita e ininterrupta até quando lhe foi humanamente possível.
Foi também, durante duas décadas, a principal mentora e organizadora da Festa da Sardinha: um dos eventos mais simbólicos e agregadores do Bairro Norte, ao qual se entregou com igual empenho, rigor e amor com que sempre serviu o seu Bairro e a sua associação.
Seguindo o exemplo dos pais, a cada noitada de São Pedro a casa 142 A, residência da família, foi sempre ponto de encontro de todos quantos se abeiraram do Bairro Norte. Com a porta aberta, a mesa posta, o braseiro aceso e a fogueira a crepitar, num serão que se prolongava até amanhecer, a Cristina fez sempre questão de manter viva uma das mais belas tradições do Nosso Bairro. Um gesto simples, mas pleno de significado, que diz muito sobre quem ela foi e sobre a forma como viveu o Norte: inteira, generosa e de coração aberto.
Como todos sabemos, o grande activo e maior património deste Norte que tanto amamos são, inequivocamente, as pessoas que durante a sua passagem terrena a ele se entregam sem nada almejar em troca, apenas por amor à linda Estrela do Norte.
A Cristina é disso exemplo maior; sem nunca a esse exemplo se resumir ou esgotar; muito pelo contrário…
Mãe exemplar, irmã dedicada, fiel amiga dos seus amigos na verdadeira essência e grandeza da palavra.
Cidadã apaixonada pela cidade da Póvoa de Varzim: lhe deu o berço, colo, casa, mar e agora, por vontade de Deus, lhe dará chão sagrado e última morada.
Artesã da Camisola Poveira, que hoje muitos de nós trazemos orgulhosamente vestida a seu pedido.
Sócia fervorosa e de longa data do Varzim Sport Club, por quem vestia de alvinegro com genuíno orgulho e paixão.
Peregrina e devota de Nossa Senhora de Fátima. Devota de Santo Amaro, de São Pedro, da Sagrada Família de Nazaré: com a Senhora do Desterro, Jesus e São José, por quem era entusiasta impulsionadora da feitura do belíssimo tapete sobre a rua António Graça, para acolher os passos solenes da procissão ao Patrono do Bairro Norte.
Em suma, e tocando o risco de as palavras serem sempre insuficientes para a definir, a Cristina / «… Mais servira / Se não fora / Para tão longo amor / Tão curta a vida.» era uma mulher multifacetada, com M grande (na definição mais insigne da expressão), apaixonada pela vida, pela qual sempre lutou com esperança e fé desmedida.
E exemplo disso, foram os seus últimos tempos de vida terrena, em que, envolta numa bolha de amor, rodeada pela família e amigos, mesmo estando extremamente fragilizada e consciente da proximidade do fim, fez questão de se certificar, sobretudo com a filha, Francisca, a continuidade, após a sua partida, de tudo o que amava fazer.
Por tudo o que a Cristina é e simboliza, a sua memória ficará perpetuada em todos nós; em particular na Francisca, a quem soube transmitir de forma exímia um amor genuíno ao Norte Azul e Ouro.
Enlutados, o Bairro Norte e a cidade da Póvoa de Varzim são e ser-lhe-ão eternamente devedores e incomensuravelmente gratos.
«A morte não é nada.»
«Os justos brilharão como estrelas por toda a eternidade.»
Obrigado por tanto!
Até Deus, Cristina.
À mesma Estrela abraçados, unidos à família enlutada:
A Direcção do Centro de Desporto e Cultura JUVENORTE
O Rancho Estrela do Norte
O Bairro Norte"