
Porque nunca gostei de despedidas, a 4 de Julho de 2018 conversei com esta grande senhora capaz de nos dizer do coração. Agora que o vento leva a notícia da sua vivência terrena deixo aqui as suas palavras.
Vidas por Contar
No Ensino Encontrou a Vocação, na Cidadania foi o Exemplo
Maria do Carmo Barros Caimoto nasceu em 1926, em Alijo, Vila Real de Trás-os-Montes. Ainda menina veio com a família para a Póvoa de Varzim. Foi aluna da professora Justina, numa escola que foi demolida para dar lugar à Basílica do Sagrado Coração de Jesus. Fez o antigo 6º ano no colégio das Doroteias, do Coração de Jesus, tendo depois concluído os estudos no Liceu Eça de Queiroz. Na Universidade de Coimbra, estudou direito mas desistiu para se licenciar em Histórico-Filosóficas. Estudou inglês no Instituto Britânico do Porto. Entre o ensino que abraçou para a vida foi entre 1972 e 1974 vereadora da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.
“Os tempos eram outros, até os nomes dos cargos, mas fazia o papel que hoje tem os vereadores. O presidente da Câmara era o Dr. Arriscado Amorim. Na altura fazia também parte da vereação, entre outros, o senhor Alberto Eiras, e o Dr. Trovão. Tínhamos uma reunião uma vez por semana. Debatíamos todos os assuntos de interesse público, onde cada um dava a sua opinião, por vezes discordando dos outros. Com o 25 de Abril de 1974 fomos saneados da autarquia. Na altura fiquei ofendida, porque eramos uma equipa que lutava pelos interesses da terra sem qualquer remuneração. A prova disso foi o combate que travamos com o poder central para conseguir, a 16 de Junho de 1973, elevar a Póvoa de Varzim a cidade. Com a revolução ficou toda a gente louca por mudanças”, recorda Maria do Carmo Caimoto.
Depois da experiência autárquica as energias foram colocadas ao serviço do grande amor da sua vida, o ensino. “Concluída a licenciatura dei aulas no Colégio das Doroteias, no Colégio Dom Nuno e no Liceu da Póvoa. Mesmo quando exerci funções autárquicas nunca deixei de dar aulas porque era a minha única fonte de rendimento. Depois do 25 de Abril apareceu a disciplina de Organização Política, como não sabia o que eles queriam, deixei-os querer à vontade e ensinei aquilo que eu achava que era legal, nada de invenções. Era uma luz sobre a política em democracia. Não acrescentei nada à história. Sempre dei o que estava nos livros”.
Para Maria do Carmo Caimoto ser professora é saber comunicar: “Fui sempre muito exigente nas disciplinas que leccionei, como História e Filosofia. Não dava muito tempo para os alunos preguiçar. Sempre houve cábulas e miudos com uma capacidade criativa enorme. É muito importante saber agarrar o aluno, saber contar, comunicar. No início as turmas eram separadas, depois passaram a ser mistas. Ensinar é preparar o futuro. O presidente da Câmara Aires Pereira e o Luís Diamantino foram meus alunos no Liceu. Fico feliz por saber que muitos se formaram, mas fundamentalmente pela lembrança positiva que tem de mim. Como nunca gostei de estar parada ainda dei meia dúzia de anos aulas na Universidade Sénior. Saí há cerca de um ano”.
A professora recorda o seu tempo de aluna: “Frequentei o colégio das Doroteias numa época em que não havia muitas alunas o que implicava ser chamada todos os dias para dizer a lição. Quem não soubesse ficava a estudar no fim das aulas. As freiras eram muito exigentes com a aprendizagem. Em Latim eramos três alunas e tínhamos que saber os textos do programa e fora dele. Um dia apareceu lá um inspector e perguntou uma frase latina e eu respondi. Disse-me que a resposta era incorrecta, mas a madre interveio a meu favor levando-o a reconhecer que se tinha esquecido de algum Latim. Nunca gostei de me elevar perante os outros. Fui Delegada Distrital da Mocidade Portuguesa da Póvoa de Varzim. O regime queria as mulheres prendadas e ensinava-se corte e costura, higiene. Como eu dava a teoria mas sabia costurar, fazer uma saia às pregas e outras peças de vestuário, todas se interessavam em revelar os seus dons”.
Entrar pela memória até ao tempo de menina é para Maria do Carmo Caimoto recordar uma pequena Vila onde toda a gente se conhecia: “Era uma Póvoa simpática com gente que tinha um espírito de entreajuda enorme. Recordo as lanchas, as peixeiras a apregoar o peixe e a vender pelas portas. Grande parte das ruas era em terra batida, mas já tínhamos teatro e cinema para passar os tempos livres. Ainda tenho memória do Café Chinês que foi demolido, em 1938, para dar lugar ao Póvoa Cine. A Póvoa era uma vila romântica. Aqui me tornei mulher e poveira. Depois, acho que devemos ter brio na pessoa que somos, uma forma positiva de olhar a vida”.
Por: José Peixoto