Voz da Póvoa
 
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Viver depois de ti

Viver depois de ti

Opinião | 1954 | 10 Junho 2020

Como podemos sobreviver depois da perda de alguém importante? Na sociedade, a morte continuam a ser um tema bastante difícil de ser abordado, principalmente se a pessoa em questão tem, ou teve, um papel importante no nosso passado e presente. As expectativas que criamos sobre as pessoas das quais gostamos caiem por terra num único momento. E o depois? Como devemos proceder sobre algo que sabemos desde o primeiro dia que iria acontecer? Ninguém nos ensina a viver a morte.

A nossa sociedade retrata a morte como um tema “tabu” e nunca como um acontecimento natural. Se nos focarmos na literatura, podemos ver que a perda de alguém importante é, sem dúvida, uma experiência devastadora. Bowlby (1980), o pai da teoria da vinculação, relata-nos a importância dos laços emocionais criados com as figuras parentais no início da vida e que serão utilizados em todas as relações futuras. Surgem da necessidade de nos sentirmos seguros e protegidos. O que fazer quando esses laços são interrompidos?
 
Do ponto de vista da psicologia, existem quatro grandes tarefas que têm de ser realizadas com vista a um processo de luto mais suavizante.

A primeira tarefa prende-se com a aceitação da realidade da perda. Neste ponto, existem três grandes possibilidades de fuga: a negação dos factos da perda, a alteração do significado da perda e a reversibilidade da morte.
 
A segunda tarefa consiste na elaboração da dor da perda, ou seja, a pessoa que está em processo de luto tem que vivenciar a dor dessa perda em sua plenitude. Tentar evitar ou suprimir, apenas fará com que o processo de luto se perpetue no tempo. A negação dessa segunda tarefa resume-se simplesmente no não sentir. Esse boicote normalmente é feito com ajuda de alguns medicamentos e por meio da utilização de álcool ou de outro mecanismo de coping menos adequado.
 
O ajustamento ao ambiente em que a pessoa falecida não está mais presente apresenta-se como o terceiro passo para um processo de luto adaptativo. A falta dessa presença começa a ser sentida num período posterior à sua morte – quanto mais integrada a pessoa é nas rotinas diárias, mais cedo somos apoderados pelo sentimento de perda. Uma boa estratégia para aceitar e lidar com a perda pode originar um benefício para o sobrevivente e, deste modo, levar a uma resolução bem-sucedida desta tarefa. Por exemplo, um senhor que perde a sua companheira que, entre muitos outros papéis, tinha a função de alimentar os animais da casa, vê-se obrigado a resolver sozinho essa questão. Isso, surpreendentemente, poderá trazer-lhe uma grande satisfação e, caso a sua companheira não tivesse falecido, jamais teria descoberto o prazer em realizar tal atividade.
 
A última tarefa exige que quem está de luto faça o reposicionamento da pessoa que faleceu em termos emocionais e continue a sua vida. A memória de uma relação significativa nunca é perdida pela pessoa que sobrevive, o processo de luto tende a terminar quando deixa de existir a necessidade de reativação e de representação do falecido com uma intensidade exacerbada no seu dia-a-dia.
 
O processo de luto não é fácil, é árduo continuar a viver sem alguém que deu tanto significado à nossa vida. O caminho do luto é doloroso, mas têm de ser feito. É nos caminhos mais difíceis da nossa vida, que as respostas tendem a aparecer.

Luís Pinheiro - Psicólogo

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