Voz da Póvoa
 
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Viva Quem Canta

Viva Quem Canta

Opinião | 1949 | 25 Março 2020

      Olhos ultra-faiscantes, dentadura como branca mais branca não há, descontração própria de quem sabe que o lugar está assegurado, eis os inquestionáveis atributos da apresentadora do recente Festival da Canção da RTP. Mal abre a boca, diz: “Façam barulho, por favor, façam barulho”. Está aberta a sessão pretensamente solene. Assim se faz comunicação no reino da televisão, mas se isto é comunicar, eu cá prefiro ficar na mais negra solidão. Esqueço os consabidos pedidos de “uma grande salva de palmas” para ti, para você e… para mim próprio, já se vê. Tudo sem que alguém saiba porquê.

      Tenho pouco de melómano e apesar de ser pouco dado a crenças, acredito que a música em uníssono com a poesia (no rasto da Sophia), não sendo uma religião (Deus nos livre!), é das raras atividades que na atualidade tentam salvar uma certa espiritualidade e que não há cantor-poeta que não atue senão para salvação da sua alma…e da nossa.

     Ora um dia destes (décimo sétimo) finou-se o músico Pedro Barroso (que deixou de ser dado a conhecer aos jovens, sabe-se bem porquê) mas as TVs levaram o dia como sempre levam, debitando conselhos e admoestações, discursos e premonições, contabilizando os mortos de ontem em comparação com os mortos de hoje, concluindo em contraste com a evidência que não se pode ceder a alarmismos. Boa! Desse autor do “Viva quem canta…quem diz o que vai no peito…no peito vai um país”…nada senão uma nota de roda pé. “Se houver alguém que não goste”… Procure no Google. Procurei. As mais honoráveis figuras da nação com memória não subestimaram o desaparecimento do “artesão de canções” de sensibilidade tão díspar quanto a “Menina dos Olhos d` Água” à “Perninha da Menina”. Vale nos alguma coisa (dirá o diretor de informação) lembrar um artista velho, gordo, doente de longa data, opositor aos regímenes do passado como de hoje?! Audiências são outro negócio, há que dar visibilidade ao J. Jesus acabadinho de ganhar mais um jogo de tripla. Louvada seja a torcida do Flamengo! Cai bem. Do “Viva Quem Canta” estarão esquecidos (ou desconhecedores?) de que “Même pendant la guerre ont chante” (canta-se mesmo em tempo de guerra) ao jeito dos malogrados italianos que, na vivência da sua tragédia coletiva, não se inibem de vir para a janela evocar o “Volare”. Sim, Volare, Volare, “navegar é preciso, viver não é preciso”… De dentro destas quatro paredes em que também me encontro
                                                                   
Alcino Santos

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