Voz da Póvoa
 
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Viagem em Balão Para Desensinar a Infecção

Viagem em Balão Para Desensinar a Infecção

Opinião | 1954 | 10 Junho 2020

Ao larápio carteirista só resta esperar por melhores dias. O pequeno delito quase se esfumou com o ‘Covide’. As carteiras andaram por casa de quarentena nos bolsos dos legítimos donos.

Um azar nunca vem só. As festas e romarias foram canceladas, a distância social não permite encontrões. É a desgraça, o desespero, a depressão do meliante carteirista. A preocupação era a polícia, mas agora passou a ser a corona. As mais dolorosas moléstias têm sempre nome feminino.

O arrumador também viu a moedinha ficar em casa, mas quem é que disse que a cidade tinha poucos lugares de estacionamento?

Como a desobediência é crime, ao larápio resta ficar em casa. As alternadeiras desligaram-se do varão e ligaram-se aos alternadores. As vendedoras do corpo, as amantes e os amantes, também vendedores, os acasalados, juntos, depois da pele no spa deitam-se no sofá e deliram com as estrelas da TV. Emagreça com o exercício mais velho do mundo, combine com o seu parceiro e transpire. Perca quilos ao ritmo do vai e vem, espacial em tempo de kamasutra.

Passear o cão dá jeito, o passeio higiénico também, mas não é a mesma coisa que dizer: a reunião durou até às quinhentas ou que teve de acabar um trabalho inadiável. É angustiante, por videoconferência não dá para sair de casa, o teletrabalho também não. Aturar a sogra, o sogro, a mulher, o marido, os filhos a fazer do sofá a sala de aulas da telescola, é um Deus me acuda. Quando isto acabar até vai custar menos pagar a mesada ao infantário ou à creche.  

O cão vai perder o vício de exigir a passeata na rua ou estranhar ficar trancado em casa o dia todo. Este tempo de emergência de estado deu para conhecer a família que morava lá em casa e até os que não moravam. Depois, ler diariamente e a todas as horas “fique em casa” converteu os sem-abrigo em cérebros mais confusos. Distanciamento social já praticava, agora “desobediência é crime”, é da sua casta respeitar intransigentemente, afinal a rua é a sua casa.

Pelo meio, perdi a conta às contas solidárias que se abriram por conta do vírus, que viaja à corona e à conta do outro. O habitual num país pedinte, onde quem enche a barriga engorda a conta e vive feliz para sempre. Porque quem dá gosta de aparecer na fotografia, mas quem o levanta abriga-se no anonimato do sigilo bancário.

Mas como é preciso combater as desigualdades sociais e radicar a pobreza, o presidente é o primeiro a ir distribuir malgas de sopa, com as câmaras de televisão a envergonhar a cara do pobrezinho, do necessitado.

Entre o acho e o achar vai uma máscara no rosto e outra no chão. Como usar é que se complica. Há pessoas com máscara no andar calado e quando pretendem falar ou responder puxam-na para o pescoço. Afinal a intenção nunca foi suster o perdigoto. Este povo é de uma raça ignorante, fruto de uma educação sem cultura, mas também de umas “novas oportunidades” que não tinham contado histórias destas.

Depois, o entendimento nem sempre é fácil. Ao Zé do pagode pedem-lhe para ficar em casa porque é mais seguro. Ao prisioneiro libertam-no para sua segurança. Mesmo fora de época, também é normal ouvir dizer que fica no cu de judas, mas o Judas sempre que ouve põe-se a léguas.

Uma coisa é certa, elas voltaram às varandas e meter um supositório com bandeira nacional é por amor à pátria. Por isso, quando chegar a vacina vamos todos dar o braço ou a nádega e descascar cebolas para iludir as lágrimas e desejar má sorte ao espirro mais famoso do mundo.

Júlio Verme

 


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