Voz da Póvoa
 
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Viagem em Balão às Cinco Estações de Vivaldi

Viagem em Balão às Cinco Estações de Vivaldi

Opinião | 1944 | 19 Fevereiro 2020

Por cá, embora com ligeireza aparente os deputados preparem o dedo no ar sem uma discussão séria sobre a despenalização da eutanásia, na Holanda, onde mais de vinte pessoas por dia tratam de se despedir da vida de forma legal, já se discute a “pírula” sem dia seguinte. A ideia passa por permitir que qualquer pessoa a partir dos 70 anos de idade, velho é outra coisa, entre no mundo do além, sem ajuda de ninguém e por vontade própria. O projecto lei da moderna ou enferma “tulipa negra” é no mínimo assustadora, porque olha o ser humano como um empecilho, mesmo sendo certo que a decisão lhe pertence. O Manoel de Oliveira acharia que o ridículo mora aqui e voltaria a encenar a vida no cinema que o imortalizou.

Começo a pensar que esta terra não tem criador nem profeta bem-intencionado. Sabemos que a idade quando corre o choné ataca o cérebro, mas ainda há muita vida antes do caos, isto, num país onde os cuidados paliativos e continuados, em hospitais públicos, não passam de esboços trémulos, com horizontes muito nublados. Sabemos que o ideal, mesmo, seria criarem um banco de sobresselentes que permitissem render as avarias ou órgãos fora de prazo.

Também sei que esse tempo futuro vai chegar com as regras do passado. Aos pobres restará órgãos colunados em segunda mão ou terceira, com garantias prescritas. A pobreza e a miséria sempre acolheram e assumiram no seu regaço a tradição mais velha do mundo. Faz parte do código canónico dos fiéis obrigacionistas, que para se chegar às portas do céu há um imenso caminho a percorrer pelos infernos.

O fim à vista não existe, a morte não se vê, nem no túnel mais fundo. É pertença do outro mundo. Um jornal diz o que escreve e os seus críticos só ouviram dizer, quem não lê acredita e multiplica. O sério também ri, diz-se diminuído na soma e divide-se em razões que não convencem.
Agora que até os ciclones, tempestades tropicais e outros arrasos da natureza tem nome de gente, gente há que não existe e morre incógnita. São maluquinhos de tara perdida e a demência não passa de gente ‘faltinha de ideias’. Sem outra razão, quem é que não gostaria, sem como nem porquê, adormecer e acordar morto?

A despenalização da eutanásia parece aliviar as responsabilidades políticas e do estado em garantir os dois lados da dignidade humana. É sempre bom lembrar que a velhice não é doença, é acima de tudo experiência e respeitabilidade. Com este distraído desistir do outro e acelerado umbiguismo, vamos todos acabar disfuncionais ou desmembrados do sangue geracional.

Vai-te embora Baco, afasta o cálice, a rolha que nos cala, em teu nome a embriaguez globalizou todas as estações, mesmo, desconhecendo que comboio do tempo agarrar. Referendar as consciências é votar contra a incerteza e a favor da lucidez, sem nunca se abster das fragilidades humanas, que acima de tudo, encontram no amor e no afecto a maior razão da sua existência.

 


Leia a notícia na íntegra na edição impressa

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