Voz da Póvoa
 
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Viagem em Balão ao Voto em Branco e a Cores

Viagem em Balão ao Voto em Branco e a Cores

Opinião | 1931 | 6 Novembro 2019

Valha-me o Santos Ferreira que de milagreiro não vive, mas espera um dia ser beatificado pelas mãos largas que teve para os especuladores. Deus não dorme só de pensar como é que esta malta se mantém à tona num país de afogados. Nunca fomos muito de crematório, antes de purgatório, que é o sítio onde escolhemos notas de quinhentos euros para marcar na bíblia as epístolas que nos vão levar ao céu. A democracia passa o tempo a merendar nos comícios e nos bebícios. Aliás nem o orador seria capaz de se engasgar em promessas sem a uva ou o rojão.

O povo não vota, o povo não sabe votar, o povo não quer votar, o povo vota sempre. Como saber qual das clarividências estão certas é a questão. O povo não vota porque não se sente representado e muito menos com a mão na asa. Quem agarra o tacho veste fato de família e a cilindrada do popó tem uma cavalariça enorme. O povo não sabe votar porque só lhe ensinam que o trabalhinho é muito lindo e a sornice tem custos elevados. O povo não quer votar porque Abril secou há muito os cravos e as rosas têm disfarçados espinhos. O povo vota porque o autocarro para os comes do comício é de borla e os bebícios sempre nos fazem esquecer as labutas escravas do corpo e nos alimentam o sonho de adiar o apocalipse para depois da eternidade.

Aos faustosos do feudo não se lhe diz quem os come por lorpas. Diz-se não te rales tanto com a metamorfose do nosso primeiro, o presidente já disse que não dá mais beijinhos aos babados. Prefere ajudar na recolha de dádivas para o Banco Alimentar contra a fome, porque os outros ou servem para sentar o rabo ou para serem assaltados pelos seus administradores, donos e quejandos disto tudo.

Estas regalias e mordomias sociais precisam de financiamento e injecções de capital, de quem lá vive e do resto do país. Por isso na estrada já não chega ter a carta de condução em dia ou a inspecção. Por tributo ou demanda do chefe não era a velocidade que fez Stop, mas o excesso de dívidas ao fisco. A ideia era e é boa. Evitam-se cartas extraviadas ou baixas médicas falsas a justificar a falta do arguido nos tribunais. O mandante nem merece ser investigado pelo ajuste directo que promoveu.

Por vezes um extravio na conversa fiada, em tempos pouco remotos, aproxima-nos dos novos revolucionários e activistas do voto nulo, branco ou caseiro. Como cada vez menos eleitores votam a cores, é preciso ajudar, a garotada desmiolada e as unhas de gel, na compreensão da importância de eleger. Votar em massa assustaria qualquer político cuja intenção é meter a mão nela. Se vai à missa convém ouvir o padre.

Como somos um povo sempre atento ao subsídio, ao apoio social, atestado multiusos, Porta 65, tarifa solidária do gás e luz, entre tantos outros, não seria má ideia, na candidatura ao dito, ser obrigatório consultar nos cadernos eleitorais e verificar se participou no acto. As europeias foram um descalabre, mas são aos milhares os projectos de candidatura a concurso e aprovados para receber do 2020, a fundo perdido. Uma parte dos que recorrem ao guito esqueceu de votar ou aplaudiu-se de abstencionista.

Não votam porque os candidatos ao governo do Estado não prestam, não votam porque a União Europeia é uma finta capitalista. É uma imperfeição comprovada, mas os subsídios não têm qualquer defeito e até dão um aliviado jeitão. Então, começar pela obrigação de participar no acto cívico era um princípio que, por si só, reduziria os acomodados na indiferença democrática, mas amigados e acasalados às suas benesses.

Por Júlio Verme


Leia a notícia na íntegra na edição impressa

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