Voz da Póvoa
 
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Viagem em Balão ao Vómito Científico da Náusea

Viagem em Balão ao Vómito Científico da Náusea

Opinião | 1939 | 15 Janeiro 2020

Os muros sempre se ergueram visíveis ou invisíveis tal como os murros que damos ou gostávamos de dar. É por isso que o Chega já tinha chegado há muito, era apenas uma questão de coragem para se mostrar. Um bairro social ao lado da socialite só podia levar com um muro para o grafiti, segundo alma daninha e gentil de Leiria. Por cá tudo o que é húmido bairro, fora do burgo, fica à mercê dos dias de sol.

Os políticos são a favor da sua democracia. Dizer que não são democratas é desconhecer a raiz do pensamento do cidadão político. Ele comove-se quando descasca cebola e nós choramos. Ele sorri quando fala para o povo, porque entende que o voto é a sério. Racista é que ninguém é, mas nos passatempos dos jornais as brancas jogam e ganham sempre, sejam damas ou xadrez. A democracia chega a ser tão extraordinária que permite a eleição de uma ditadura.
 
Se o Rodrigues lhe desse com o Ferro não era vergonha nenhuma e o Ventura, sem cartaz, talvez voltasse a ser o André da tese de doutoramento, que alertava para a estigmatização das minorias e o discurso do medo. É uma peninha o contágio do poder ter consequências devastadoras em termos de saúde mental dos políticos.

À porta de uma igreja a esmolar foi corrido pelo padre o pedinte. Dentro, os santos serenos, a olhar o mealheiro vazio, não lhes incomoda a barriga. O arrumador de seringas queixa-se do chuto que levou do automobilista e diz do chão lesado no pó. Se ao menos a farmácia tivesse de tudo encomendava uma ressaca em pastilhas.

Tudo isto porque ninguém suporta o Trump, o Bolsonaro e o Boris Johnson, mas foram todos eleitos pelo monstro sem cabeça, naturalmente convencido que mais vale emigrar que ser emigrante. Quando os países eram apenas territórios baldios, as gentes eram nómadas felizes e sem propriedade, uma invenção guerreira. Agora erguem muros para que o vizinho não olhe do seu quintal ou assassinam um general enquanto o outro abate um avião civil cheio de inocentes.

Se um qualquer Ernesto tem resina no que o outro diz, a mentira é uma ilusão de óptica. Os biólogos dizem que a espécie dos autarcas, por norma, é alérgica à fotossíntese e, vai daí, com um espirro abatem uma árvore, outra e outra, até que o santinho lhes agradece o acumular de folhas que evitam nas sargetas. Também há quem defenda que o fim das florestas resolveria o problema dos incêndios. Fala-se muito do aquecimento global, mas ninguém se lembra disso quando treme de frio.

O clima já não é, porque envelhecemos a achar que dantes é que era. Agora fazem-se cimeiras para acordar um acordo, mas como nunca perguntam ao de lá de cima se concorda ou está em desacordo, ele vai rasgando nuvens, implodindo vulcões, fazendo tremer o mar, a terra e os terráqueos, até que o ‘Apocalipse dos Trabalhadores’ seja lido em tempo de bonança.
 
A carpideira é que tinha razão, quando entre rezas e cantigas de inimigo dilacerava no velório a alma ao falecido. Em tempos de servidão comia-se melhor nos funerais que ao nascer. Agora temos um anunciado super hábito que passa por pagar as dívidas à banca mesmo depois do leilão. Esta maravilha de país quando deixar de vender dívidas ainda nos arruma um lugar no camarote da feira da ladra.

Júlio Verme


Leia a notícia na íntegra na edição impressa

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