Voz da Póvoa
 
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Viagem em Balão ao Regresso do Tempo Lento

Viagem em Balão ao Regresso do Tempo Lento

Opinião | 26 Fevereiro 2021

Os cães rafeiros são uma raça canina capaz de reunir o rebanho, enquanto o pastor dorme. Não sei se é saudade do pé descalço, se ainda acreditam que Angola é nossa ou que o crocodilo abatido não usava sapatos. Sei que o rafeiro conseguiu reunir todos os latidos informativos à sua volta, sem grande esforço. Bastou que a Janta se realizasse, que o Alentejo se confinasse, para que o martelo se deixasse de ouvir e a foicinha não cegasse, para que as ervas daninhas se erguessem na planície.

A Maria já não vai à Fonte porque o cântaro partiu e a gadanha deixou de ser o rastilho da revolução. O mesmo destino teve a epopeia das Matildes, que se davam, sem luxos, ao lapidar do corpo. Os sonsos diziam que eram verdes, acreditavam na Raposa do Aquilino Ribeiro, sem perceberem que estavam a apoiar a Epopeia dos Tiranos. Os livros em prisão preventiva aguardam pela liberdade condicional, porque ler é perigoso, pode revelar-se contagiante e um povo sabedor é mais difícil de embrulhar.

Em matéria de facto, a justiça arregala os olhos aos compadrios e confina os processos-crime de lapidação do erário público às gavetas do arrefecimento global da corrupção. Só me entendo quando o esquecimento for tratado atrás das grades da pildra. A seita de corruptos pratica o afundanço no bolso do outro, alimentando a manada que os protege, com chorudos tachos. Se o povo abandonasse a escravidão e exigisse do voto a devolução, estes parasitas eram colocados em distanciamento social definitivo.

Ninguém teme a Marta e passam o tempo a desancar nela, como se a mulher tivesse culpa dos acagaçados, desnorteados e sulistas, sem esquecer os contrabandistas de vacinas. A chuva fez mais pelo “fique em casa” que todos os avisos. Depois, temos os ilustrados ilusionistas da campanha “sem um Pingo de vergonha”, no Continente e até nas ilhas, gente de traque fácil, calça no rego e esmeralda gravata. Ao pé-coxinho, tornam-se donos disto tudo, escravizam o douto empregado e infectam o estimado cliente com o íman das confusões geradas pelas suas promoções. A lojinha cumpridora finou-se no malho inquisidor da governação, azar.
 
São Grandes as Superfícies e o confinamento das autoridades é tão real quanto a ficção fiscalizadora. O tarde e o nunca amedrontaram-se e, ao pé-coxinho o sobrevivente acredita no Ventura e já não tem fome de pão. Deve ser da saudade das multas por andar descalço ou do credo na boca do pedinte. Por caridade, o negócio das tigelas de sopa prolifera e já ninguém se lembra da Raríssimas, que tão vastíssimas vezes, se dedicou ao palmanço do subsídio público.

Ser honesto é ser ingénuo. Acorda antes que a corda e o nó aperte. Não vês que o Banco com mais um chuto espalmou-se na falência e o pendurado és tu? Depois, anunciado o suicídio já ninguém te deve nada, nem um pedido de revisão constitucional que condenasse os deserdados de vergonha ao suplício da razão.  

Júlio Verme

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