Voz da Póvoa
 
...

Viagem em Balão ao Deus Dinheiro do Mexilhão

Viagem em Balão ao Deus Dinheiro do Mexilhão

Opinião | 1958 | 29 Julho 2020

Quem quer ganhar uma picareta? Não apostes pai que perdes. E se for um garrafão? Aposta pai que ganhas. Dinheiro fácil sem vergar a mola começa a ser procurado desde a criançada da escola. Houve o tempo do pião das nicas em que se ganhava o prazer de rachar o outro ao meio. O botão arrancado da camisa lá de casa era jogado na sorte e, ao montinho também se usava apostar o tostão. Os vícios dos mais velhos rapidamente contaminavam, na bisca lambida, os mais novos e no Natal, que se quer diário, jogava-se aos pinhões com a rapa, põe, tira e deixa ficar.

A casa, que de santa tem o nome, sempre lhe deu na misericórdia de distribuir em sorte o azar de quem joga e perde. Joga sempre, mesmo que não esteja a ajudar-se, ajuda a entesar-se. Contaram-me que no tempo do nacional cançonetismo ou das cruzadas salazaristas havia a lotaria, uma coisa que guardava para o desgovernado a terminação e o primeiro prémio para a casa de partida ou um rico sortudo. Depois veio a popular, a distribuir migalhas.
 
Antes disso, o futebol ajudou no totobola e ganhava-se sem comprar ninguém, agora, abrem a capoeira aos frangos e nem pedem desculpa pelo engano de passar a bola ao adversário. É mentira, esta gente ganha muito bem e errar é tão humano como corromper a árvore que serve ao árbitro outra mesa de fruta.

Considerando o saque ainda diminuto vem a caminho a lotaria do património. Esta genial ideia governativa, segundo fonte pouco credível, procura reabilitar e recuperar as obras de arte contemporâneas pertença do Ministério da Cultura, mas mal guardadas pela Direcção Geral do Património Cultural, desaparecidas misteriosamente das paredes públicas para casa de alguém em privado.

Com esta desesperada procura de excentricidade, os salários e as reformas raspam-se na raspadinha, ao ritmo de quatro milhões de euros por dia, o povinho acaba a procurar a fortuna no caixote do lixo, quando deveria raspar-se da raspadinha. O estado vai arrecadando uns milhões nos impostos e na cobrança de vinte por cento do prémio a partir dos cinco mil euros, quando a miséria começa a deixar a fome. O financeiro faz as contas e revela um saldo extraordinário na cobrança dos jogos online, só não revela um aumento alarmante no psicólogo, ou na ruina de milhares de famílias pelo vício que vira doença compulsiva.

Ninguém obriga ninguém, diz o mais ignorante e raspado cidadão. Também um charro nunca fez mal a ninguém, o segundo faz rir e o terceiro chora por mais, no entanto vai abrindo o caminho para a tolinha pedir pó e outras seringas e, a carteira geme de lisura e, a família leva chutos por tabela. 
  
Pelo menos há alguma igualdade do género, mas é o macho o mais apostador. Nas lides profissionais a coisa pia diferente. Por cada euro ganho por um homem, uma mulher recebe 84 cêntimos e tem muito mais trabalho a conta-los. Esta atitude discriminatória custaria apenas 16 cêntimos às entidades empregadoras. 

De regresso ao jogo, uma carteira online está destinada ao fracasso. Se ao menos desse para apostar nas bacoradas debitadas no tempo de antena dos políticos, acredito que o povo enriquecia em três tempos. Haja saúde e tintol para a figadeira que o mata-bicho perdeu a pontaria na farmácia. O problema tem um sentido prático na resolução. Quando não consegues decifrar o que vês estás cego. O jogo é uma espécie de coveiro encartado que é bem capaz de abrir a sua própria sepultura, mesmo num jogo a feijões.

Júlio Verme

partilhar Facebook
Banner Publicitário