Voz da Póvoa
 
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Venha o "próximo", sem Pressa

Venha o "próximo", sem Pressa

Opinião | 1952 | 13 Maio 2020

Hoje, mais do que nunca, a palavra “próximo” assume uma polissemia de grande relevância, que requer sensível ponderação e que, até certo ponto, em si, é capaz de suscitar uma mudança de paradigma.

Se, por um lado, tal vocábulo é sinónimo de esperança, é-o, também, de doença, da doença mais enraizada na sociedade e no “eu” – a pressa.
 
Actualmente, a pressa é deusa, rainha e senhora. Temos pressa de viver, de fazer, de sair, de ultrapassar - temos a pressa do “próximo”. Sentimos ardentemente a urgência de conhecer o que virá depois. Assim, o medo do amanhã acalma-se, dança uma valsa suave esperando um (novo) prelúdio por ora indefinido, apenas queremos ver um novo dia chegar.
 
Então, tal ser evoluído que somos, havendo até quem nos chame de Humanos (com H maiúsculo), idealizamos, impacientes, o próximo passo, o próximo dia, tropeçamos no “viver com pressa” e esquecemos a poética “pressa de viver”.

Temos, ademais, necessidades, pressa em ter soluções, em tomar decisões e essa urgência – manifesta que o é – talvez seja a maior inimiga da perfeição, ou, se na perfeição não acreditarmos, pois não somos de utopias, no mínimo sempre diremos que a pressa é inimiga da utilidade e da praticabilidade – ou tal não tem sido o caso de inúmeros solutos desajustados, medidas, escritas a papel e caneta em folha de rascunho, significativamente desfasadas da realidade que visam tutelar? Não nos atrevemos a sugerir que se demore mais tempo, apenas que não se tenha pressa, que não se vire a página, olhe para o relógio e, prontamente se diga: “próximo”!

E assim se continua ouvindo dia após dia: “-Próximo (…) próximo!”. Uma e outra vez a palavra é reproduzida até à exaustão, até ao desgaste do alfabeto. Próximo na fila; próximo problema; próxima solução; próximo beijo; próximo abraço – quando será o próximo?

Os “próximos” somam-se, aglomeram-se numa simbiose perfeita de esperança e dor.
 
Porém enquanto estes “próximos” se somarem, criando uma polissemia desconforme e retractando uma epopeia de arco íris (por vezes a preto e branco), estará tudo bem!

Na realidade, a cada “próximo” corresponde uma oportunidade, uma vitória, uma derrota, uma aprendizagem, um símbolo, uma bandeira – pessoas, cada vez mais reais, mais humanas.
 
E se o mundo não é cor-de-rosa, se o quadro que se avizinha não é de simples pintura, há sempre uma certeza – haverá um próximo dia, uma nova oportunidade.

Não a desperdicemos.


Sara Peixoto – Jurista - Cerejeira Namora, Marinho Falcão

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