
João Durão, família classe média, logo após a conclusão da licenciatura na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa foi mobilizado para cumprir serviço militar obrigatório na Guiné em pleno cenário de guerra. De lá trouxe mulher e filho, mas apesar da reserva que o assunto lhe merecia não foi isento de dificuldades o regresso às avenidas novas de Lisboa.
Profissionalmente ingressou e fez carreira nos quadros do Estado.
Os seus pareceres tornaram-se conhecidos pela qualidade da análise produzida, mas também por não poupar no uso de figuras de linguagem.
João Durão tinha várias obsessões que tiranizavam o seu dia a dia.
Pela manhã não saía de casa para a repartição sem levar dinheiro trocado em moedas na precisa quantia para:
Os bilhetes de ida e volta do autocarro 27;
O Diário de Notícias;
O café de manhã e o almoço na cantina.
Qualquer extra deste padrão deveria ser provisionado em numerário, fosse uma matiné, aniversário ou despedida de colega que se aposentava.
Lidava muito mal com “imprevistos”, quando algum ocorria ficava de tal modo agitado que não conseguia trabalhar. Contudo, em modo sem surpresas, era sociável, culto e bem humorado. Os seus pareceres eram bem sustentados, mesmo que por vezes o uso inesperado de metáforas – ou qualquer outra figura de linguagem – requeresse segunda leitura.
Nesta oportunidade não resisto a partilhar o teor da desconcertante conclusão formulada num processo em que se discutia o regime jurídico aplicável entre vários possíveis.
“Quantos pêlos brancos pode ter uma vaca preta sem que deixe de o ser?.”
“Vª Exª, porém melhor decidirá
À consideração”
João Sousa Lima