Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares – Segredos de campo e mar

Turistando Lendas e Lugares – Segredos de campo e mar

Opinião | 16 Maio 2021

 

A chuva cobriu de cinza a noite em Aver-O-Mar.

Através do telhado era possível escutar o som das gotas a cair, pesadamente, sobre as folhas de telha zincada, a embalar o sono desta prenda que vos fala, nos braços de Iansã.

Pela manhã, o cheiro a terra molhada era um convite às boas lembranças, que rolavam de mãos dadas com um sorriso franco, por sobre os campos orvalhados da minha infância e adolescência.

Transportei-me para Santa Maria, e para os verdes bosques de Itaara, que conserva os poucos resquícios de Mata Atlântica remanescentes no Brasil, com suas cascatas e lagos, que oferecem um refúgio verdejante e sereno aos que fogem da cinzenta e ruidosa cidade.

Ouvi o assobio curioso do sabiá-laranjeira, o suave canto do pardal, que traz consigo o prenúncio da alvorada. Vislumbrei o vermelho e branco do cardeal, qual uma gota de sangue em um campo nevado e não pude conter uma lágrima que deslizou pela minha face fazendo dos meus lábios sepulcro.

Ao sentir o sal do seu sabor, retornei a Aver-O-Mar e ouvi ao longe o grito agudo das gaivotas a testemunhar a proximidade do mar, a fartura do peixe, a odisseia diária dos pescadores no intento do seu sustento.

Tudo aquilo que jamais sonhei presenciar um dia.

E, como num momento de epifania, compreendi que, por mais distantes que estejamos, somos parte de um todo que nos abraça e acolhe.

Vivemos sob o mesmo céu e sob os mesmos astros, somos ligados pela harmoniosa melodia das andorinhas, que cavalgam no vento ao redor do mundo e trazem notícias das bandas de lá.

Então, meu coração se encheu de alegria e libertei o pranto, enquanto a chuva voltava a cair, a molhar corpo e alma, a lavar a solidão e a abençoar a terra, trazendo com ela o elixir que faz brotar flores e amadurecer frutos.

Assim como nós, nem só de tristeza chora a natureza!

 

Maria Beck Pombo

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