Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares – Reminiscências

Turistando Lendas e Lugares – Reminiscências

Opinião | 1951 | 28 Abril 2020

Feliz dia das mães! E salpicão na mesa!

Prato que de comum com o das bandas de cá só tem o nome...

Lá onde o Minuano faz casa é tradição das épocas festivas essa mistura inusitada de frango e cenoura desfiados juntamente com otras cositas que fazem-nos lamber os beiços.

Olhei para a travessa à minha frente e a nostalgia inundou o meu espírito.  Esse sentimento estranho que descolore memórias cor-de-rosa.

Salpicão lembra-me Natal, Natal lembra-me família reunida, crianças a correr em torno da mesa, “amigos-ocultos” cheios de revelações, muito carinho e emoções à flor da pele.

Lembra-me a desagradável surpresa da maçã a estragar por completo o meu prato preferido, o que me desagradava barbaridade, mas ao mesmo tempo fazia-me gozar da satisfação imensa de ter minha avó por perto.

“— Não ponhas maçã, !”

“— Tá bem, guria!”

E lá ia a maçã entreverar-se com todo o resto na gamela!

A casa era grande como o coração das mães e nunca faltava espaço à mesa para algum índio vago que fosse cair em nosso rancho, desgarrado da sua própria tropilha.

Sempre encantou-me essa balda da minha gente em acolher os paisanos sem norte como se fossem um dos seus, sem receios ou preconceitos, os braços estavam sempre abertos...

Mas não hoje. Hoje de braços cruzados mostramos o afeto que sentimos uns pelos outros, sem beijos ou afagos.

Hoje as palavras traduzem-se em carinhos e curiosamente nos fazemos mais presentes do que dantes. Vemo-nos mais do que dantes, partilhamos mais do que dantes e sentimos mais a saudade aninhar-se cá dentro pois conviver de longe magoa, talvez por isso minha tendência em fazer-me ausência. Afinal já diz o provérbio: “o que os olhos não vêem o coração não sente!”

— Sirvo-te, amor? Pergunta o meu amor com meu prato nas mãos.

Acordo dos meus devaneios e guardo as doces memórias para uma sobremesa a ser degustada outro dia sem amargar a saudade.

Afinal hoje não é Natal.

Mas temos salpicão na mesa!

 

 

Maria Beck Pombo                                                   

 

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