Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares – Quando se contam as primaveras

Turistando Lendas e Lugares – Quando se contam as primaveras

Opinião | 18 Junho 2021

 

Debruçada sobre o beiral da janela, ela contemplava o rebuliço da natureza em seu quintal.

Tinha a mente vazia de pensamentos, concentrada apenas na complexidade da vida que a cercava, no movimento sutil das folhas ao sabor do vento, no som, quase inaudível, dos insectos a cortar os caules suculentos, de modo a garantir o sustento para os dias futuros. No desabrochar desapressado das flores a encantar os olhares mais pacientes.

Apreciava um melro negro que cantava sob a janela, como quem a convidasse a penetrar no fantástico mundo dos sonhos, onde tudo é possível e perfeito.

Ouvia a conversa acalorada, entre os tios e o avô, que vinha da pequena cozinha contígua a casa e fazia do futebol tema de suma importância, provocando-lhe o riso e a satisfação de estar, novamente, entre família.

Ela que nunca fora ave sem bando, encontrou um ninho onde pousar depois de enfrentar tantas tormentas: a pequena casa transformada em castelo, o pequeno quintal, em floresta encantada e a família emprestada que a acolheu com tanto amor, pois amor não se gasta, nem está amarrado à consanguinidade.

Agradeceu em silêncio a todos os deuses e divertiu-se com a ideia de estar a completar quarenta primaveras…

Não se sentia de todo uma mulher de quatro décadas, mas o tempo corre de forma diferente dentro e fora dos homens.

Às vezes se sentia uma anciã, como se tivesse atravessado eras e eras a desvendar os mistérios do mundo, a trilhar o caminho do autoconhecimento. Noutras alturas sentia-se como uma menina a soprar esperanças junto aos dentes-de-leão e a apostar seus amores nas folhas do bem-me-quer.

Mas nesse dia, diferentemente de tantos outros, ela sentia-se apenas mulher.

A mulher que não sonhara ser, mas que é. Com todos os seus defeitos e qualidades, com a vida que não planejara, mas que fora construindo a cada passo, a cada acerto, a cada erro, a cada atalho e que fazia dela estranhamente feliz, por não ser perfeita e sim recheada de surpresas que preenchiam o seu espírito de felicidade.

Inspirou profundamente e sussurrou para o Universo:

— Por mais um ano a andar sobre essa terra e sob esse céu, a respirar desse ar e banhar-me nessas águas, a aquecer-me nesse fogo e a aprimorar meu espírito. Por mais um ano a comungar com o divino e a transformar em palavras a sua inspiração, com a intenção de tocar a alma humana, eu agradeço e peço que venham, no mínimo, mais quatro décadas.

Por mais que o tempo passe, ela será sempre uma guria!

 

Maria Beck Pombo

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