Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares - Quando o dourado perde a cor

Turistando Lendas e Lugares - Quando o dourado perde a cor

Opinião | 30 Novembro 2020

Quando eu era guria, nos idos dos meus dezoito anos, tinha o costume de sentar-me sobre as folhas caídas dos poucos carvalhos dispersos pelo campus da Universidade Federal de Santa Maria.

Imaginava-me, pois, a viver onde essas árvores magníficas cobrissem abundantemente as paisagens. Em lugares onde as imagens de além mar que me chegavam faziam cintilar meu olhar, qual um pêndulo a baloiçar sob a luz trêmula de uma vela, a hipnotizar e transportar meu espírito para as ruas cobertas do loiro das folhas, da nudez despudorada das árvores e do frio que confortava meu coração em chamas, ávido de aventuras, pronto a engolir o mundo.
Mal sabia eu que o mundo também podia causar indigestão!

E que o suave cheiro do outono, que tantas lindas memórias trazia, tornaria-se agridoce às minhas narinas. A mistura quase perfeita entre mel e fel, amarelando as recordações e roubando do passado a cor, empalidecendo meu olhar anémico que fita o futuro sem ver.

Quando eu era guria, nos idos dos meus dezoito anos, eu sonhava eu ser aquela que escrevia boas novas do velho mundo para o novo, mas envelhecida tornei-me por ter ignorado que o dourado era a mortalha que cobria o verde-esperança das folhas moribundas.
Desde então prefiro os pinheiros!

Maria Beck Pombo

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