Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares – O vento e o tempo

Turistando Lendas e Lugares – O vento e o tempo

Opinião | 1954 | 10 Junho 2020

No ano de 1905, no meu pago natal, nascera um guri destinado a ser um dos mais populares escritores brasileiros do século XX.

Érico Veríssimo, escritor de O Tempo e o Vento, o retrato desse país sulino engolido pelo Brasil, conquistou meu coração já muito cedo, mal tinha eu aprendido a serventia das palavras.

Doze anos eu tinha quando visitei pela primeira vez sua casa feita museu em Cruz Alta. Foi como recuar no tempo. A um tempo em que eu não vivera mas que me era estranhamente familiar.

Talvez daí tenha vindo a minha grande paixão por conhecer onde viveram grandes (e pequenas) personalidades. Cada parede, cada móvel contava em silêncio a sua própria história. Parecia-me ouvir a sinfonia seca das teclas da velha máquina de escrever a compor histórias que fincariam raízes na alma de tantos sonhadores como eu.

Essa viagem através do tempo e da intimidade desse grande escritor cruzaltense inspirou-me a escrever meu primeiro livro.

Sim, no interior do Rio Grande do Sul, numa pequena cidade de nome curioso, aos doze anos de idade uma apaixonada pelas letras escrevia à mão o seu primeiro romance: Os Trigais.

Uma história romântica entre dois personagens de mundos distintos, unidos pelo acaso e separados pelo destino.

Ao lembrar esse homem, essa casa, esse livro perguntei-me onde diabo havia perdido a minha pena? Tantos anos passaram-se enquanto eu deitava minhas palavras ao vento sem registar a intenção.

Cruzei pagos e rincões, mares, continentes. Tornei-me terra infértil, flor estéril, murcha e desbotada.

Até sentir bater no lombo a nortada que trouxe a trotezito o cheiro do Minuano. O vento que traz memórias e leva lamentos mostrou-me o caminho esquecido. Levantou o véu dos meus desassossegos e reavivou as brasas para iluminar minhas penas. E delas fiz carvão a marcar minhas palavras para a posteridade.

E afinal redescobri a relação entre o tempo e o vento, esquecida nas taperas da memória.

O vento traz o passado à galope!

 

Maria Beck Pombo

 

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