Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares – Memórias com verniz

Turistando Lendas e Lugares – Memórias com verniz

Opinião | 1960 | 26 Agosto 2020

O dia amanheceu com cheiro a adolescência! À época em que vivia às voltas com minhas belas e longas unhas . Ainda tenho algum jeito para arranjá-las embora a paciência tenha abandonado meu corpo há anos!

Tem graça mas pus me a pensar: eu fui, quando jovem, das precursoras na minha cidade a render-se às unhas decoradas. Antes dos anos 2000 poucas pessoas ousavam ir para lá dos vermelhos, castanhos, rosas e nudes. O preto era fadado aos marginalizados: góticos, punks, roqueiros.

Nunca pensara, o preto, entrar na moda à partir da atuação de Cassia Kiss como vilã de uma novela global qualquer (papel que interpretou com perfeição, como de costume), que lançou uma panóplia de cores tais como pretos, azuis, verdes e outras tantas.

Lembro de uma habilidosa manicure que tive. Desenhava meticulosamente pequenas bruxas montadas em vassouras defronte à lua cheia, apenas com um pincel. Não existiam as decorações que vemos hoje em dia, essa infinidade de autocolantes, contas, pérolas... Unhas de gel? Impensáveis! Algumas desafortunadas (que não tinham a sorte de ter unhas fortes) às vezes rendiam-se à tentação de comprar unhas postiças vindas do Paraguai feitas de um material plástico grosseiro e barato e que, invariavelmente, caíam antes do fim da festa.

Se alguém me falasse em "Gelinho" eu pensaria ser bruxaria! Um verniz que secava em segundos e durava uma eternidade? Só eu sei o que daria na época por um feitiço desses! 

Não ter que sair do salão a “assoprar-me” toda, numa aflição sem fim quando precisava sacar qualquer coisa de dentro da mala e quando pensava estar "fora de risco" encontrar AQUELA amiga que acabava com o cabelo dela todinho grudado na minha unha aquando dum abraço . Melhor que isso só a cara da manicure quando eu entrava na maior cara-de-pau salão adentro a suplicar que ela me arranjasse a unha que não resistira à viagem.

Era típico da minha pessoa. E ela arranjava com toda a paciência:
— Dessa vez vou colocar um "oleozinho secante” para não grudar por aí, mas toma cuidado!

Sua maneira simpática de dizer que para a próxima não teria arrego.
Há anos não fazia isso: sentar-me para fazer as unhas by myself.

É incrível como pequenas coisas permitem-nos olhar pela janela do tempo e relembrar os sonhos, os planos, as aspirações que tínhamos. Rememorar os amigos, os momentos, as histórias que escrevemos.

Prometo à mim mesma a partir de agora fazê-lo mais vezes, faz bem ao corpo e melhor ainda à alma!

Algumas memórias merecem verniz!

 

Maria Beck Pombo

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