Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares – Lições do adverso

Turistando Lendas e Lugares – Lições do adverso

Opinião | 1960 | 26 Agosto 2020

Nos primórdios da minha juventude trabalhei como vendedora de livros.

Batia de porta em porta pelos bairros da cidade a vender enciclopédias para os menos abastados, com a promessa de nelas conter tudo o que os jovens precisavam saber para ingressar na Universidade.

Visitei muitas famílias nas minhas andanças mas uma em particular tocou de forma muito especial meu coração e ensinou-me lições muito mais valiosas que as contidas em qualquer livro.

Era uma casa minúscula e abafada. Uma luz fraca tremeluzia iluminando o único cômodo onde dormia uma família de seis pessoas.

Uma guria que mal completara quinze primaveras já trazia uma semente no ventre.

A mãe era catadora, profissão árdua que consiste em separar o lixo reciclável contido nos caixotes imundos espalhados pela cidade, carregá-los em uma carroça que levava atrelada ao próprio corpo e vendê-lo por meia dúzia de trocos para dar sustento à família.

Todos dormiam sobre mantas dispostas no chão e o único colchão disponível na casa fora reservado à adolescente grávida prestes a dar à luz a uma cria sem pai, sem berço e sem lenço que a abrigasse do frio.

Lembro de sair da casa sem sequer dar a conhecer meu objetivo. Apenas ofereci-lhes uma gramática de bolso que fez o olhar da guria brilhar pois estudar era sua grande paixão.

Ao virar a esquina recostei-me a um portão e chorei copiosamente a perguntar como, em nome de todos os deuses, era possível no meio de tanta miséria brotar a esperança de dias melhores?

Durante a minha visita em momento algum houve um único queixume, um único lamento.

Apenas via-se o amor com que tratavam-se uns aos outros e até mesmo com a estranha aqui que fora tratada como visita ilustre e convidada a partilhar do quase nada que tinham.

A esperança e a fé imperavam naquele rancho e fui sentindo-me cada vez mais pequena por amargar meus pseudo-problemas enquanto deitava sobre plumas.

A história dessa gente, cuja existência é ignorada pelo nosso preconceito e arrogância, que enfrenta a face bruta da vida e não se acovarda diante da sua bocarra escancarada, que sente a crueldade humana e ainda assim crê na sua mudança e o mais extraordinário: que confia em algo maior mesmo contra todos os fatos inspira-me até hoje e ensinou-me a ser grata por tudo o que tenho, mesmo que às vezes me pareça pouco pois a felicidade está nas pequenas coisas, nos pequenos milagres da vida que passam ocultos aos olhos de quem apenas preza o que reluz.

Basta um sorriso para iluminar o túnel de alguém.

 

Maria Beck Pombo

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