Voz da Póvoa
 
...

Turistando Lendas e Lugares – Epifania

Turistando Lendas e Lugares – Epifania

Opinião | 21 Janeiro 2021

Tropeava solita pela cidade a sentir o ar gelado na face, à procura de uma fonte de inspiração.

O frio instalava-se lentamente em seu corpo, transportando-a para os tempos de guria, quando lera pela primeira vez um livro de Paulo Coelho:

"Nas margens do Rio Piedra eu sentei e chorei".

Ah, por quantas margens ela choraria também!

Aos treze anos de idade já sonhava com um amor digno dos contos de fadas e pensava, como qualquer pré-adolescente que se preze, que tudo sabia acerca do mundo e dos sentimentos.

Discutiu internamente com o autor, a julgar absurda a ideia de existir mais de uma alma gémea ou mesmo a possibilidade de seguirem caminhos distintos depois de encontrarem-se.

“Certamente aquele senhor não havia encontrado a sua!” – pensara consigo mesma.

Mal sabia ela que até mesmo os irmãos, que dividiram o mesmo ventre, por vezes odeiam-se.

Acreditou, morreu de amores, lutou, desistiu…

Acabou por encontrar, durante sua jornada, não apenas uma, mas duas almas cuja ligação era tão forte quanto a asa esquerda e a direita de um pássaro.

Eram eles: um egoísta irresponsável e uma sociopata.

Nunca deixou de perguntar-se em que conceito encaixava-se entre esses dois.

Aprendeu, cresceu, evoluiu e deixou-os para trás, quando já não cabiam mais em seu caminho.

E apenas depois de todas essas etapas compreendeu, por fim, o que seu autor favorito quis dizer.

Sentia no seu íntimo a sensação de ter parte da sua vivência apartada de si mesma, como em um sonho em que visitamos lugares e pessoas desconhecidas, mas que parecem-nos mais que reais quando acordamos.

Como um grito a favor do Minuano a ecoar no vazio absoluto, transformando tudo em melodia.

Percebera, por fim, que as almas não cabem nos conceitos humanos.

Que exigem uma compreensão da palavra “desprendimento” que ultrapassa nossa limitada capacidade de sentir.

Que riem da nossa audácia em julgar entender o mundo e seus mistérios.

Que lamentam profundamente a nossa necessidade miserável de definir, de classificar, de medir tudo aquilo que nos cerca, seja palpável ou impalpável aos nossos sentidos.

E por mais que nos esforcemos por descrever e arquivar cada elemento em seu lugar no dicionário, deparamo-nos com uma clara realidade:

Alguns sentimentos não têm nome!

 

Maria Beck Pombo

 

partilhar Facebook
Banner Publicitário