Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares – Encantos da Panelinha

Turistando Lendas e Lugares – Encantos da Panelinha

Opinião | 1958 | 29 Julho 2020

Pelos idos de 1805, época em que a minha existência era uma hipótese remota a baloiçar entre as ramagens da árvore genealógica que abrigou-me, aflorou juntamente com meu pago natal uma nascente de água límpida e abundante que jorrava como uma cachoeira. Era o lugar de eleição das lavadeiras da época como também dos tropeiros que por ali passavam e aproveitavam para matar o calor e a sede em suas águas cristalinas.

A esse lugar tão especial, que foi berço de muitos amores, deu-se o nome de Arroio da Panelinha.

O certo é que muitos tropeiros enfeitiçados pela beleza das prendas locais acabaram por retornar à cidade para desposar seus cambichos o que rendeu ao Arroio da Panelinha a fama das águas encantadas, onde quem delas bebesse encontrar-se-ia fadado a sempre retornar a Cruz Alta.

Eu que herdei o destino de domar palavras sorvi o puro e cristalino néctar e cinchei meu destino a esse encantamento ainda muito guria. Por mais longe que eu erre, desgarrada da tradição ou com o laço estirado em direção a sonhos redomões, não há um único dia em que deixe de sentir o chamamento das águas da Panelinha que hoje amargam o desmazelo do homem.

Vêm-me em sonhos convidar a matar a sede de memórias escondidas com sabor a charque ou ambrosia. Desafiam-me a desamarrar as raízes dessa pátria lusitana onde aquerenciei-me e estender meus ramos em direção ao pago natal onde floresci e amadureci.

E vez por outra retorno às suas margens, não apenas em pensamento mas sim em corpo e espírito, e com pesar vejo o sepultar dos meus sonhos infantis, das minhas aspirações juvenis, das minhas esperanças adolescentes sob toneladas de plástico, vidro e metal.

Nenhum encantamento é capaz de conscientizar o homem que a felicidade não cabe em embalagens.

 

Maria Beck Pombo

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