Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares – Doce e saudade

Turistando Lendas e Lugares – Doce e saudade

Opinião | 1953_b | 3 Junho 2020

Muitos anos antes de eu sonhar existir, a família da minha avó materna deixou o pacato interior do Rio Grande do Sul rumo ao vibrante Rio de Janeiro o que rendeu a mim e às minhas irmãs dezenas de caixas em formato de autocarro com os mais doces rebuçados que uma criança poderia querer.

Esse era o miminho que a Autoviação Pluma oferecia aos passageiros que dignavam-se a pequena viagem de 23 horas do Rio até Cruz Alta e por ele nós, que não tínhamos noção de tempo nem da sua preciosidade, até abdicávamos da presença da avó durante as férias de verão. Sabíamos que a recompensa era sempre tão doce quanto caramelo.

Aos meus 12 anos, Vó Nadir trocou o pago sagrado pelos encantos da cidade maravilhosa imprimindo-me na memória a falta que deixara juntamente com a minha tia mais nova que vivera connosco, mais ou menos um ano, até completar os estudos.

Foram tempos bicudos em que eu, uma pré-adolescente que reinava soberana sobre a vontade das minhas irmãs mais novas, tinha de dividir espaço com uma adolescente despeitada a quem roubei, sem querer, a majestade.

Nem mesmo cães e gatos peleavam mais que nós as duas!

Lembro-me de uma vez estar a brincar, em nosso quarto, com um peluche que ela ganhara do bem amado, enquanto ela arrumava-se para sair com o vivente e ela encontrar-me com o peluche na mão, voar para cima de mim e em cólera tomar-me o brinquedo a gritar que eu nunca mais lhe pusesse as mãos em cima.

Um ato totalmente injusto, na minha opinião, pois todas as vezes que lhe cortei os cabelos às barbies ou borrei-lhe as caras das bonecas com hidrocor foram totalmente sem intenção. Ademais, dividir comigo os chocolates ou as “balas-chiclet” era um dever passível de ser instituído na Constituição das Relações Tias-mais-novas com Sobrinhas-mais-velhas, portanto não carecia propriamente de nenhum consentimento, era só servir-se!

De qualquer forma, não poderia deixar a injustiça impune: dei de mão num frasco de desodorizante mais malcheiroso que essência de zurrilho e despejei todo em cima dela, enquanto ela gritava e chorava, o namorado batia à porta e a minha mãe corria da cozinha para o quarto com vontade de esganar-nos as duas!

Por longos anos essa foi a relação que eu tive com a tia Simone. Fui a protagonista da destruição não apenas das suas bonecas, como também da maioria das suas lembranças infantis até aquele verão do ano que eu completaria 13 outonos.

A mudança da minha tia não touxe a satisfação que eu pensei que traria. Antes pelo contrário: não ter quem infernizar, mas não só, não ter com quem dividir a minha vida tornava-me triste. E enfim comecei a perceber que não só de espinhos era feita nossa relação. Que nela havia muitas coisas doces, para lá dos chocolates que eu lhe furtava.

Assim os outocarros de rebuçados perderam o sabor, pois traziam o amargo da despedida iminente e eu que mal sabia o que era o tempo aprendi a contar as estações à espera da tia mais nova impertinente, que revelara-se a melhor amiga que eu poderia querer.

 

Maria Beck Pombo

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