Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares - Noite dos Mascarados

Turistando Lendas e Lugares - Noite dos Mascarados

Opinião | 1945 | 26 Fevereiro 2020

“ ... Mas é Carnaval

Não me diga mais quem é você!

Amanhã tudo volta ao normal

Deixa a festa acabar, deixa o barco correr...”

                     – Chico Buarque de Holanda –

 

De todos os meus sonhos de guria o que me é mais precioso é aquele em que passo um Carnaval em Veneza. Guardei-o embrulhado em seda, no recôndito da alma e não deixei que meu olhar de pessoa crescida o descolorisse.

A Colombina vinda de nenhures a desfilar sobre as gôndolas venezianas entre canais e construções. Altiva e esplendorosa, assim era no meu imaginário.

Sempre encantou me a história de Veneza, da sua construção até as personalidades que por ali passaram ao longo do tempo.

Mas nada encanta me mais que as suas cortesãs. Mulheres sábias, de gosto impecável e beleza invejável. Mulheres que carregavam sob as anáguas a chave de todos os destinos!

Experenciar um momento como o Carnaval nesse lugar é o sonho de menina que mais almejo realizar. Poder provar por ao menos uma noite da glória e decadência dessas mulheres. Rodar no salão por entre saias, confetes e serpentinas e vestir a máscara, a fantasia. Esconder minha alma transparente e brincar de também ser a dama poderosa cujos conselhos e vontades traçavam o rumo de homens e nações.

É curioso pensar que essas mulheres inspiraram outras a seguir seus passos através de gerações.

À semelhança delas, por exemplo, temos as chinas do meu pago, termo esse que nada tem a ver com nacionalidade ou país. As chinas não eram instruídas ou esplendorosas, eram mulheres rudes que garantiam o bem estar dos Maragatos durante a Revolução Farroupilha.

Acompanhavam seus homens, costuravam fardas, corpos e almas, adotavam os órfãos da guerras e pegavam em armas para defender a terra e os seus. Sim, assim como escreveu Verônica Franco em Veneza três séculos antes disso, essas prendas rudes, destemidas e audazes provaram aos homens que tinham “mãos, pés e coração como eles” e que delicadeza e força poderiam não só andar de mãos dadas como também erguer bandeiras.

Essas prendas que não foram lapidadas para o deleite de homens nobres, foram companheiras e abrigo dos peões perdidos nos campos de batalha, eram o alento que servia de apoio e instrumento de nobres homens em busca de nobres conquistas.

E eu, que cruzei oceanos para os pagos de cá carrego nas veias o sangue de todas essas mulheres, chinas e cortesãs. E isso enche me de orgulho.

Tão curioso isso de sonhar... podemos viajar através do tempo e do espaço, através de mundos, ouso dizer...

E meu Carnaval em Veneza ainda há de ver chegar a Colombina gaúcha mestiça de todas as pátrias!

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