Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares – Seus Males Espanta

Turistando Lendas e Lugares – Seus Males Espanta

Opinião | 1951 | 28 Abril 2020

Desde que “me conheço por gente” encantam-me as palavras, o dizer, o tocar o coração humano.

Mal tinha acabado o período de alfabetização e eu já arriscava uns versos, uns contos, umas peças...

Sempre de lápis e papel em punho, fosse onde fosse (e assim o é até hoje!).

Até que um dia eu descobri a música e tudo fez sentido: não bastava escrever, era preciso falar.

E assim o fiz. Escolhia a dedo o repertório, quase sempre em português, um espanhol de quando em vez pois gaúcho que é gaúcho compreende los hermanos!

Mensagem por mensagem eu selecionava as mais belas e carregadas de significado.

Lotei bares, fui feliz, fiz feliz...

Com satisfação eu via sempre um público cativo à espera, não da minha voz, que nunca foi grande coisa, mas da mensagem.

Encantados pela forma com que eu era capaz de convidar cada pessoa naquele salão a dançar comigo uma coreografia única sob uma canção universal.

E fui cantando pelos bares da vida até o mundo obrigar-me, não a crescer mas a tornar-me adulta.

Porque ninguém cresce amarrado...

Silenciei o microfone e deixei que os holofotes se apagassem juntamente com meu brilho.

E pouco a pouco tornei-me cinza, não mais fulgor.

Aceitei as críticas à minha voz medíocre que curiosamente nunca encontrou um bar vazio.

Faltava-me o dom, não da palavra mas da melodia. Compreensível em um mundo que não liga ao que se diz e esquece que o belo pode sempre ser cruel... Ou vazio!

Fui encolhendo-me e entristecendo até que um dia revisitei o passado, revi os holofotes, o público, a felicidade da qual vestia-me e as dezenas de corações a bater em uníssono com o meu.

Então percebi a que vim: para confortar! E isso faço hoje em dia apenas com as palavras, sem a voz.

Preenchida pela certeza da felicidade de ser antes medíocre do que ninguém!

Nunca deixem de (en)cantar!

 

Maria Beck Pombo 

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