
A falta de planeamento é um problema constante no nosso país. Se, por um lado, existe frequentemente uma grande dificuldade em programar atempadamente a execução de políticas públicas, por outro, quando os instrumentos de planeamento existem, acabam, muitas vezes, por servir apenas para decorar os gabinetes dos autarcas.
A Póvoa de Varzim não é exceção. A clara ausência de uma estratégia que guie a ação deste executivo reflete-se inevitavelmente no concelho e na cidade.
Nos mandatos anteriores, era possível identificar uma visão para a Póvoa de Varzim. Existia uma opção política clara: privilegiar o betão e reduzir o verde. Era uma visão de cidade que considero errada e profundamente míope, mas era uma visão. No caso da atual Presidente da Câmara, continuamos sem perceber qual é o modelo de cidade e de concelho que pretende construir.
Nos últimos anos assistimos a verdadeiros atentados urbanísticos e ambientais, em que o predomínio do cinzento e do betão acabou por despir os nossos espaços públicos da sua identidade e da sua função de locais de encontro.
O Largo da Lapa é um exemplo paradigmático. As árvores que proporcionavam sombra e ajudavam a regular a temperatura - algo particularmente relevante no contexto das alterações climáticas e das vagas de calor que hoje enfrentamos - foram abatidas e deram lugar a um espaço sem vida. Os senhores que ali passavam as tardes a jogar à sueca foram encaminhados para a marquise do Centro Ocupacional. Retirar as pessoas do espaço público, confinando-as a espaços fechados, também é uma opção política.
Aquele largo, que representava um local de convivência, com sombra e apelativo para a comunidade, resume-se hoje a um espaço amplo, dominado por uma escultura de dimensão monumental e cuja principal utilidade é servir, durante as Festas de São Pedro, de local onde o Bairro Sul monta o seu palco.
O Largo do Passeio Alegre é outro exemplo desta conceção de cidade. O jardim romântico deu lugar ao betão. A cidade-espetáculo encontra aí todo o seu esplendor num palco de pedra: um espaço que, uma vez mais, pouco convida ao encontro, ao diálogo ou à permanência.
A cidade da Póvoa de Varzim possui três avenidas largas que poderiam ser exemplos das melhores práticas de desenho urbano, privilegiando mais árvores e mais espaços verdes, com todos os benefícios ambientais, paisagísticos e sociais que daí decorrem. As árvores são uma verdadeira infraestrutura urbana: reduzem a temperatura nas cidades, melhoram a qualidade do ar, promovem a biodiversidade e tornam o espaço público mais confortável, saudável e habitável. No entanto, a construção do parque de estacionamento subterrâneo na Avenida Mouzinho de Albuquerque não acautelou, em termos de profundidade, as condições necessárias para permitir a plantação de árvores de grande porte. Ainda assim, através de soluções como caldeiras elevadas, não seria impossível devolver um corredor verde à cidade, seguindo as melhores práticas adotadas em cidades como Paris ou Barcelona.
Na última Assembleia Municipal, confrontei a senhora Presidente da Câmara com o que considero ser a sua evidente falta de visão para o município, mascarada pela propaganda excessiva que promove nas redes sociais. A resposta foi que ainda não tinha começado a apresentar as suas grandes políticas e que começou o seu mandato há pouco tempo, possivelmente esquecendo-se de que foi vereadora durante os últimos dezasseis anos e que nunca se opôs ao cinzentismo que marcou esse período. Referiu ainda que estaria atenta às propostas e aos votos da oposição quando elas viessem a ser discutidas.
Mas quais são, afinal, as grandes políticas que a senhora Presidente apresentou nas últimas eleições?
Um parque de estacionamento subterrâneo na Avenida Santos Graça. Um parque de estacionamento de superfície na Praça Marquês de Pombal, junto ao Mercado Municipal.
Nenhuma destas propostas aumenta um único metro quadrado de espaço verde. Nenhuma devolve a cidade às pessoas. Ambas reforçam exatamente o mesmo paradigma urbano que marcou as últimas décadas.
Na Avenida Santos Graça, a proposta implica retirar árvores, abrir uma enorme escavação na avenida e criar ainda mais perturbação no quotidiano da cidade. Significa repetir os mesmos erros do passado: remover pessoas e árvores do espaço público e insistir numa visão que empobrece a vida urbana.
É esta a visão que a senhora Presidente da Câmara tem para a Póvoa de Varzim? Um urbanismo que insiste em reproduzir as piores práticas do século passado?
E na Praça Marquês de Pombal? Retirar as pessoas do espaço público para o entregar ao domínio dos carros. Uma vez mais, repetir os erros do passado e insistir num modelo urbano ultrapassado.
Se estas são as grandes políticas da atual Presidente da Câmara, então não pode vitimizar-se nem exigir à oposição que acompanhe os desvarios urbanísticos que o PSD propõe.
Esta é, no fundo, uma opção política sobre o modelo de cidade. De um lado, estão os que querem uma Póvoa de Varzim pensada para as pessoas, para viver, conviver e usufruir do espaço público. Do outro, os que continuam a acreditar que o futuro da Póvoa passa por transformar o espaço público num grande parque de estacionamento.
Gonçalo Angeiras, Presidente do PS/Póvoa