
Gosto de mapas, desde a escola primária, do Portugal Continental, do “Portugal é grande” com a Europa coberta pelas províncias ultramarinas, designação encontrada para fugir aos ventos da história das independências das colónias sob o jugo europeu. Portugal, por artes mágicas, integrava as colónias na organização política e administrativa da nação. No antigo 3º ano do curso de Direito da Universidade de Coimbra ainda estudei Direito Colonial, Lucas Pires a dar uma lufada de ar fresco nos conteúdos bafientos. A conservadora Faculdade, aliás, a Universidade, era a fornecedora dos quadros do regime, na esteira de Salazar e Cerejeira.
O fascínio pelos mapas/cartas continuou no Liceu – onde os mestres da geografia não chegavam, muito menos o Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico de Orlando Ribeiro – era preciso debitar climas, relevos, estreitos dos vários continentes. Apelava à memória que, de tanto recitar me ficaram lenga-lengas da História, principalmente a civilização grega, da física e das leis de Boyle-Mariotte, Arquimedes ou a Escala de Dureza ou Moz, da biologia e classes de mamíferos, aves, répteis e peixes…
Quanto à história de Portugal, com alguns mitos e mentiras, foi meu desígnio desmontá-los, agora que me interesso cada vez mais pelas viagens dos portugueses e os seus reflexos na cartografia. Na biblioteca municipal de Porto Santo encontrei obra que nunca tinha visto, consultado, Portugaliae Monumenta Cartographica, edição da Imprensa Nacional, Armando Cortesão e Avelino Teixeira da Mota, autores. A 1ª edição integrou-se nas comemorações do centenário do Infante D. Henrique, 1960; frequentando o liceu fomos “convocados para a festa”, de que não tenho boas recordações. A 2ª edição, que consulto, tem prefácio de Alfredo Pinheiro Marques num volume que é adenda de actualização. Escreve A P Marques que “no panorama da historiografia portuguesa e mesmo internacional, os Portugaliae Monumenta Cartographica representam uma das maiores realizações culturais até hoje levadas a cabo”.
Fui comprando livros sobre cartografia por curiosidade e vontade de saber mais sobre uma área em que os portugueses foram pioneiros quando afrontaram as novas fronteiras do Atlântico com a navegação astronómica, a suplantar a navegação mediterrânica. Pedro Reinel me fez – à volta dum mapa dos descobrimentos, de Joaquim Ferreira do Amaral; História da cartografia portuguesa, de Suzanne Daveau, companheira de Orlando Ribeiro, e outros historiadores; e uma publicação exaustiva, em fascículos, com texto explicativo, de mapas e cartas de todo o mundo. Um espanto para os olhos e uma achega importante para consultas.
Abílio Travessas