Voz da Póvoa
 
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Os tarequeiros, testemunhos de dois estelenses

Os tarequeiros, testemunhos de dois estelenses

Opinião | 30 Novembro 2020

Zé Bino, do seu sítio na Rede, descreve a freguesia: “Estela, com muitos pinhais que rodeiam a freguesia e todos os seus caminhos, chegando mesmo as pessoas, a terem medo de passar em alguns desses sítios, quando já era escuro devido à densidade das árvores que não permitia ver direito o caminho à frente.

O pinheiro era utilizado principalmente para a produção de madeira, sendo as pinhas deixadas pelos proprietários pois, para eles, elas não tinham qualquer valor.

Nessa altura surgiram os tarequeiros, gente pobre que vivia na Valdóia, nas Urzes, mas principalmente no Teso.

Tempos difíceis. Estas pessoas viviam do que conseguiam arranjar. Rondavam os campos em busca de batatas esquecidas pelos lavradores. Iam às vinhas, a ver se ficava alguma gaipada por vindimar e apanhavam as pinhas “inúteis” para vender na feira quinzenal da Nª Srª das Dores, na Póvoa.

Actividade que nem sempre era aceite pelos proprietários, os mais forretas, que entravam em conflito com os tarequeiros.

Gomes dos Santos, também na Rede:

“Viviam em casas térreas de telhado de caleira com duas águas, sem forro nem soalho, sem divisões nem sanitários. Água não tinham, pois a construção dum poço era privilégio dos remediados e ricos.

Numa mediação completa e total com a natureza, nas suas andanças pelos pinhais, caçavam coelho a cacete e tinham os melhores cães para os ajudarem, o que lhes deu treino para a vida de que os descendentes beneficiaram. O que foi feito dos tarequeiros? Emigraram para França, Alemanha, Suíça, Luxemburgo ou Canadá. Hoje, os seus descendentes visitam-nos no Verão com uma vivência diferente, fruto do dinheiro ganho.”

As citações são longas, mas de interesse para melhor conhecimento da freguesia e de gente que conheci nos anos 50/60.

Também no livro Actividades agro-marítimas em Portugal, há abundante informação sobre Aver-o-Mar e o tema. Ernesto Veiga de Oliveira, In Aguçadoura – Estudo Económico – Agrícola, Junta de Colonização Interna, Lisboa, 1944: Taraqueiro: população sem terra ou, caso mais geral, possuindo uma gleba de área muito pequena – menos de 0,1 ha – cujo rendimento é insignificante. Recorrem ao salário em múltiplos trabalhos. Na exploração agrícola, na apanha do sargaço ou pilado ou, como recurso e quando possuem fracas condições de trabalho, apenas à apanha de lenha seca, pinhas e gravulha dos pinhais.

Abílio Travessas - Professor

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