
Faz agora 20 anos que publiquei a obra "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro- Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário", graças ao meu amigo Valter Hugo Mãe e á extinta editora Objecto Cardíaco. O livro foi (e ainda é...) um enorme sucesso de vendas e fez furor muito devido ao poema precisamente intitulado "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro" (mas não só...), na altura dedicado ao espertalhaço José Sócrates, mas que encaixa perfeitamente no larápio laranja Luís Montenegro, que quer impor o Código Laboral, mas que não vai conseguir, tal é a magnitude das greves e manifestações dos jovens, dos precários, dos trabalhadores e das populações em geral.
Lembro-me de que nesse mesmo ano de 2006 fui dizer o poema ao Festival de Paredes de Coura, juntamente com a grande trip "Borboletas" e com a versão portuguesa do "When The Music's Over" do Jim Morrison, acompanhado pelo Adolfo Luxúria Canibal e pelo Isaque Ferreira. Tive uma grande ovação, já então, no Centro Cultural de Paredes de Coura. A "Declaração de Amor" conheceu também muitos momentos de glória nos bares "Púcaros" e "Pinguim", no Porto, "Pátio" em Vila do Conde, na Casa das Artes, em Famalicão, e no Teatro Campo Alegre, também no Porto, entre muitos outros lugares.
O livro "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro" já deve ter vendido 700, 800 ou mais exemplares e pode ser encontrado nas feiras do livro a preço de saldo ou na Internet e teve uma grande crítica no Brasil, através do conceituado escritor e ensaísta Nelson de Oliveira, tal como outra célebre obra minha, "Queimai o Dinheiro" (2009), editada pela Corpos, dos meus amigos Ricardo de Pinho Teixeira e Adriana Pereira. O Nelson de Oliveira coloca-me, no seu longo ensaio "Axis Mundi" e em dois artigos publicados na revista "Rascunho", entre os 12 maiores poetas portugueses do séc. XXI, ao lado de nomes como Adília Lopes, Gonçalo M. Tavares, Inês Lourenço, Valter Hugo Mãe ou Luís Serguilha, salientando o carácter anarquizante e zombeteiro da minha arte, "o poeta que vai aos bares vomitar poesia", o bufão agitador que segue Walt Whitman, Nietzsche, Rimbaud, Diógenes, Dioniso, Luiz Pacheco, Alberto Pimenta ou João César Monteiro, "o bisneto de Sócrates", aquele que bebe e brada, que brada e bebe e que não poupa os políticos, os patrões, as pop-stars, os padrecas, nem a manada que dorme e pasta. Sou também o poeta da boémia, do rock n' roll e das mulheres, na esteira de Jim Morrison, Henry Miller ou Charles Bukowski, com as suas Afrodites, Kaylas e Minkas, simultaneamente deusas e meretrizes. Gozo com tudo, no fundo, mas acredito no Amor Infinito e na Liberdade Absoluta. E sou igualmente o poeta da insurreição: como acrescenta Valter Hugo Mãe, "estabelecendo uma relação com a poesia equivalente à do militar com o seu arsenal e estratégias, António Pedro Ribeiro faz da palavra uma arma inesgotável e vê no capitalismo o inimigo público nº1".
Apetece-me estar do lado da revolta.
Apetece-me dizer que já pouco ou nada acredito nos partidos, mesmo nos de extrema-esquerda.
Que lutar por lugares dentro da democracia burguesa é aceitar como irreversíveis a democracia burguesa e o próprio capitalismo e, portanto, afastar totalmente do horizonte a revolução.
Apetece-me dizer que acredito na poesia e no amor como formas subversivas. Que acredito em actos provocatórios, em agitações espontâneas, que ridicularizem o instituído, no terrorismo poético. Que a criatividade é o último reduto da rebelião.
António Pedro Ribeiro, sociólogo, cronista, poeta e dizedor de palavras...