Voz da Póvoa
 
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O peso avassalador da solidão

O peso avassalador da solidão

Opinião | 1956 | 8 Julho 2020

 Muitas pessoas já sentiram ter pago um preço demasiado alto ao tentar agradar toda a gente. O que nos leva a agir desse modo é o medo constante de nos sentirmos sós. Estou a falar do medo da solidão mesmo quando estamos acompanhados, ou seja, o medo persiste a existir até quando tentamos fugir dele. As relações sociais tornam-se significativas quando são de qualidade e refletem intimidade. É normal termos o desejo de estarmos rodeados de pessoas que apresentem escalas de valores próximas das nossas. Neste sentido, uma forma desvirtuada de se viver seria habitar um ambiente não selecionado com base naquilo que somos e queremos, mas sim baseado nas nossas inseguranças.

Os relacionamentos que nascem do medo, ou da insegurança, leva-nos a aceitar condições que podem ir contra os nossos valores. Em contrapartida, os relacionamentos que são criados e mantidos pelo desejo intrínseco de estarmos com a outra pessoa fazem-nos usufruir melhor dos momentos proporcionados pela relação.

O que nos guia nos relacionamentos nem sempre é constante e, inicialmente, pode advir de uma vontade genuína em querer partilhar momentos com a outra pessoa, contudo, facilmente, essa motivação pode se transformar numa dependência. É neste momento, em que deixamos morrer a nossa assertividade, que damos espaço ao medo para proliferar rapidamente, o que nos deixa presos aos nossos relacionamentos em vez de os vivermos em sua plenitude.

O objetivo de formarmos relações interpessoais não deve ser o de agradar toda a gente. É importante aprendermos a aproveitar as relações que nos fazem bem e consequentemente terminar com as relações tóxicas, uma tarefa que tende a ser difícil de realizar quando se é conduzido pelo medo. Essa linha ténue e fácil de cruzar existe quando o medo de ficarmos sozinhos supera o nosso amor-próprio. Do medo não advêm qualquer tipo de evolução, pelo contrário, é gerado apenas estagnação.

Como então podemos contrariar este medo natural? A resposta encontra-se no desenvolvimento da nossa assertividade. É importante que nas nossas relações interpessoais aprendamos a ser sinceros connosco e consigamos dizer não quando realmente é preciso. Claro que este processo não é fácil, e não é de forma instantânea que aprendemos a ser assertivos nos momentos cruciais das nossas relações. É um trajeto longo e vertiginoso, no qual em certos dias estamos a controlar as situações e noutros somos controlados por elas.

O mais importante é sabermos identificar quando o medo de estarmos sozinho controla-nos e nesses momentos, termos uma força titânica para o contrariar, porque só assim podemos realmente viver genuinamente o melhor de nossos relacionamentos.

Luís Pinheiro – Psicólogo

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