Voz da Póvoa
 
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“O negro no futebol português”

“O negro no futebol português”

Opinião | 16 Abril 2021

Está por fazer a história do negro no futebol português?

Pôs-se-me a questão ao ler o livro de Mário Filho – O Negro no Futebol brasileiro – obra importante para “fixar o processo, de uma certa forma penoso e longo, da democratização do futebol brasileiro”.

Cada país, cada cultura, tem a sua maneira de integrar o negro ou, dito de outra maneira, o modo como o negro se impôs, no caso brasileiro, no futebol, superando barreiras sociais e raciais.

Como noutros países o futebol chegou ao Brasil levado por ingleses a trabalhar em fábricas como a Companhia Progresso Industrial do Brasil, cujo mestre de estamparia, John Stark, fundou o The Bangu Athletic Club: sete eram ingleses, um italiano e só um brasileiro, branco. Lá como cá o futebol começou desporto de elites e só mais tarde se popularizou. Sporting e Porto foram fundados por filhos de gente d’algo, estudantes em Inglaterra donde trouxeram a bola do jogo que os seduzira.

O “desastre de 16 de Julho” de 1950, o maracanãzo”, levou o Brasil a profunda depressão, encontrando nos negros, Barbosa – guarda-redes – Juvenal e Bigode os “bodes expiatórios”. “Culpou-se o preto pela derrota, melhor os três pretos. Os brancos, diz Mário Filho não foram acusados de nada”.

No Campeonato do Mundo de 58 o seleccionador Vicente Feolla “escalava” o branco preterindo o negro. O capitão Bellini, branco, loiro, ficou para a história pelo gesto de levantar o “caneco” acima da cabeça; Garrincha, descendente de índios, só entrou para o confronto com a URSS. Com Pelé, Garrincha na direita, mais o “centro-avante” Vavá, mais escuro do que branco, o Brasil derrotou a URSS e partiu para a conquista do título. Um mulato e um preto tornaram-se os ídolos da conquista do 1º campeonato do mundo.

Negros no futebol português houve muitos, vindos das colónias. A integração foi boa não constando atitudes de racismo. Sebastião Lucas da Fonseca, o Matateu, a “oitava maravilha” e Eusébio, os maiores; mas outros povoam as minhas recordações: Hilário, defesa esquerdo e Mascarenhas, do Sporting, avançado, ainda recordista de golos num jogo, em Taças Europeias; Coluna, “a locomotiva do Benfica” e Santana; Carlos Duarte, extremo-direito clássico do FC do Porto, Vicente, irmão de Matateu, marcador implacável de Pelé, belenense de sempre, Yaúca, “A Pérola Negra” (colecção Ídolos do Desporto), Miguel Arcanjo e Perdigão. Acrescento Jordão e Oswaldo Silva e, da Académica Mário Wilson, Torres, recentemente falecido, mais Chipenda, Araújo e França, homens importantes nos seus países depois da descolonização.

Pelo Varzim passaram alguns, não muitos. Pesquisando no livro do centenário há, fotografia da época de 29/30, uma equipa do Varzim com elementos do FC do Porto num jogo disputado em La Guardia em Setembro de 1929. Um dos jogadores é negro mas não é seguro que seja varzinista. Na época de 53/54, Magalhães, é talvez o primeiro “escurinho” da nossa equipa; já na época 64/65, Nelson, exímio cabeceador, aparece como máximo goleador do Varzim no Campeonato Nacional da 1ª divisão, marcando 11 golos. Sidónio, da defesa “balzaquiana” com Fernando Ferreira, Quim e Salvador, é também negro. Benje, enorme guarda-redes, Sidónio, Rico – que faleceu durante um treino a 20/04/72 – e Walter afirmaram a negritude na época 65/66; Valdir jogou no Varzim, com Rico na época seguinte e Benje, Sidónio, Rico e Nelson integravam a armada de 68/69. E fico por esta década que tantas a tão boas recordações me traz.

 

Abílio Travessas

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