
Há, no Homo Sapiens, uma tendência tanto para o gozo, para a embriaguez, para o êxtase, para o furor como para a raiva ou para o ódio.
O orgasmo no sapiens é muito mais violento do que nos primatas e a mulher, ao contrário das fêmeas antropoides, experimenta um prazer extremo e espasmódico. Daí as deusas Kayla, Minka, Lisa e Afrodite. Dá-se uma exaltação de todo o ser. Através do álcool ou de outras drogas, através do rito ou da dança, da música e da poesia, da procura de estados de embriaguez, êxtase ou paroxismo, atinge-se o auge e tem lugar a integração com o outro, com a comunidade e com o universo. Há que transformar as alegrias em delírios e beatitudes. Bataille e Roger Caillois concluíram que a consumação, o excesso e a vertigem ocupam um espaço central na ciência do Homem. Daí o ubris ou a hybris, ou seja, o excesso ou a desmesura, que se aplica às actividades intelectuais mais sublimes.
Para Edgar Morin, o reino do sapiens corresponde à irrupção da desordem no mundo. Eis o Homo-Demens, o ser possuído pelos deuses e pelos espíritos. Nada tem a ver com frieza, cálculo, computação, controle, IA ou castração. Brindemos, então, à magia, à festa, ao sonho, à quimera, à utopia, à loucura! Atiremos fora os chefes, os vendilhões e os padrecas!
António Pedro Ribeiro, Sociólogo, cronista, poeta e pensador