
Há uma pergunta que me acompanha há algum tempo sempre que se discute o ensino do Português nas escolas: que livros devem acompanhar um jovem durante a sua formação?
A resposta parece simples, mas talvez não seja tão consensual como deveria.
Os melhores. Os livros que sobreviveram ao tempo. Aqueles que continuam a ser lidos por diferentes gerações porque conseguem falar de algo que permanece no ser humano.
O ensino do Português tem, antes de mais, uma responsabilidade fundamental: preservar a nossa própria literatura. Uma escola portuguesa não pode deixar de ensinar Gil Vicente, Luís de Camões, Padre António Vieira, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner ou Miguel Torga.
Estes autores não são apenas nomes inscritos nos manuais escolares. São a memória viva da nossa língua. Neles encontramos a evolução do pensamento português, os grandes debates da nossa sociedade, as nossas dúvidas, as nossas ambições e também as nossas fragilidades. Retirar estes autores do centro da formação literária seria perder uma parte essencial daquilo que somos.
Mas preservar a literatura portuguesa não significa fechar os alunos dentro das nossas fronteiras.
Pelo contrário.
A língua portuguesa sempre viveu em diálogo com o mundo. Camões dialogou com a tradição clássica. Eça de Queirós conhecia profundamente a literatura europeia. Fernando Pessoa construiu uma obra que pertence simultaneamente a Portugal e à Humanidade.
Por isso, o ensino do Português deveria abrir mais espaço às grandes obras intemporais da literatura universal.
Não porque sejam antigas. Mas precisamente porque não envelheceram. Uma obra torna-se eterna quando consegue ultrapassar o seu próprio tempo e continuar a responder às perguntas fundamentais do Homem.
É por isso que Tolkien merece estar entre os grandes autores que os nossos alunos deveriam conhecer. Muitos jovens conhecem o universo de ‘O Senhor dos Anéis’ através do cinema, mas poucos percebem que estão perante uma das grandes narrativas morais do século XX.
Tolkien não escreveu apenas uma história de fantasia. Escreveu sobre a amizade que permanece quando tudo parece perdido, sobre a coragem dos pequenos perante forças gigantescas, sobre a humildade daqueles que não procuram o poder e sobre o perigo de uma ambição que pode corromper a alma humana.
O anel de Tolkien é uma das grandes metáforas universais da humanidade: a tentação do poder absoluto.
O mesmo acontece com C. S. Lewis em ‘As Crónicas de Nárnia’. Por detrás de uma aventura destinada aos mais jovens encontramos uma profunda reflexão sobre a escolha entre o bem e o mal, sobre o sacrifício, a responsabilidade e a possibilidade de redenção. São temas que não pertencem ao século XX. Pertencem a todos os séculos.
Também ‘O Conde de Monte Cristo’, de Alexandre Dumas, continua atual porque fala de uma das maiores fragilidades humanas: a vingança. A história de Edmond Dantès não é apenas uma narrativa de aventura. É uma reflexão sobre justiça, sofrimento, transformação e sobre a difícil fronteira entre reparar uma injustiça e deixar-se consumir pelo ressentimento.
Em ‘Os Miseráveis’, Victor Hugo colocou no centro da literatura uma das perguntas mais profundas da humanidade: pode um homem mudar? A história de Jean Valjean continua a emocionar porque fala da dignidade humana, da compaixão e da possibilidade de redenção.
Cervantes, em ‘Dom Quixote’, oferece-nos uma das personagens mais extraordinárias da literatura universal. Um homem que luta por ideais que muitos consideram impossíveis e que nos obriga a perguntar se uma vida sem sonhos será realmente uma vida plena. Mark Twain, através de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, mostra-nos a descoberta da liberdade, da amizade e da consciência moral. Júlio Verne desperta a curiosidade científica, o espírito de aventura e a confiança no conhecimento. Robert Louis Stevenson, em ‘A Ilha do Tesouro’, recorda-nos que crescer significa também aprender a distinguir entre a lealdade e a ambição.
Até obras aparentemente destinadas apenas aos mais novos, como ‘O Principezinho’, de Antoine de Saint-Exupéry, escondem grandes lições sobre a amizade, a responsabilidade e a importância de olhar para além das aparências.
Estas obras permanecem porque falam das grandes virtudes humanas, mas também dos grandes defeitos humanos.
A literatura não serve apenas para mostrar heróis perfeitos. Serve para revelar o Homem.
A mitologia grega continua a fascinar precisamente porque os próprios deuses carregam as fragilidades humanas. Zeus, Hera ou outros deuses não são figuras distantes e perfeitas. Sentem inveja, ciúme, orgulho, desejo de vingança e vontade de poder. Ao olhar para eles, os antigos gregos estavam, na realidade, a olhar para si próprios.
É essa uma das maiores forças da literatura: mostrar-nos quem somos.
A escola não existe apenas para ensinar técnicas de leitura ou preparar exames. Existe para formar pessoas. Um aluno que conhece estas grandes obras compreende melhor a História, a Filosofia, a Arte e até a própria literatura portuguesa.
Não se compreende totalmente Camões sem perceber a tradição épica que o antecedeu. Não se compreende totalmente a literatura europeia sem conhecer as grandes narrativas que atravessaram séculos. Não se forma um leitor completo se lhe for negado o contacto com os livros que moldaram gerações.
O critério para escolher uma obra escolar não deveria ser apenas a sua proximidade com o presente. As escolas não devem ensinar apenas aquilo que é atual. Devem ensinar aquilo que continua a ser importante quando o presente já passou.
Os programas podem e devem evoluir. A literatura continua viva e novos autores podem, naturalmente, conquistar o seu lugar. Mas uma escola que abandona os livros eternos corre o risco de formar alunos informados sobre o seu tempo, mas desligados da longa história da humanidade.
Os livros que resistiram ao tempo não resistiram por acaso. Resistiram porque encontraram algo permanente na alma humana.
Os programas escolares mudam ao ritmo das gerações. Camões, Cervantes, Tolkien, Victor Hugo ou Eça permanecem.
Uma nação revela a confiança que tem no seu futuro pelos livros que entrega às suas crianças.
Paulo Freitas do Amaral
Professor e Autor