Voz da Póvoa
 
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O Desporto Não Pode Ficar em Pausa

O Desporto Não Pode Ficar em Pausa

Opinião | 14 Fevereiro 2026

 

O desporto é um dos pilares da saúde pública, da educação e da inclusão social. Não se trata apenas de competição ou rendimento, mas da criação de hábitos de vida saudáveis, promovendo o bem-estar físico e emocional, a saúde psicológica e a coesão social, transmitindo valores fundamentais para a formação e o desenvolvimento das pessoas, quer na vida pessoal quer profissional.

Portugal encontra-se entre os países da União Europeia com níveis mais baixos de prática regular de desporto e atividade física, quando comparado com os seus pares europeus. Os estudos indicam que uma larga maioria da população portuguesa pratica atividade física muito raramente ou nunca, o que constitui um sério alerta sobre os padrões de vida atuais da sociedade portuguesa, e que trará impactos a médio e longo prazo na saúde das pessoas. 

Estima-se que, no nosso país, cerca de 14% das mortes anuais estejam associadas à inatividade física. Para além do desfecho fatídico, a ausência de atividade física acarreta elevados custos económicos e sociais, por vezes difíceis de quantificar. O desequilíbrio entre prevenção e tratamento é evidente: a despesa anual em saúde ronda os 26,5 mil milhões de euros (cerca de 10% do PIB), enquanto o investimento público direto no desporto se situa entre 55 e 60 milhões de euros por ano, o que representa apenas 0,2% da despesa em saúde.

Perante um sistema de saúde sob pressão constante, é legítimo questionar se não continuamos excessivamente determinados em remediar, ao invés de investir na prevenção de forma estratégica. O desporto não é um “extra”, é um verdadeiro vetor da saúde pública, capaz de minimizar necessidades futuras e respetivos custos, e de melhorar a qualidade de vida das pessoas.

O Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo define objetivos até 2036, nomeadamente a generalização da atividade física, o combate à obesidade infantil, o reforço da participação feminina, a promoção do desporto adaptado e o apoio tanto ao desporto de base como ao de alto rendimento.

Contudo, a concretização destes objetivos exige uma visão integrada do desporto, que promova sobretudo a educação física escolar, crie e salvaguarde espaços públicos seguros para caminhar e correr, e assegure a manutenção e ampliação das infraestruturas desportivas existentes, garantindo uma gestão consciente. 

Posto isto, o processo de atualização dos planos estratégicos de desenvolvimento desportivo deve traduzir-se em programas e projetos alinhados com as necessidades reais dos munícipes, e não apenas em iniciativas pontuais.

O histórico desportivo da Póvoa de Varzim mostra-nos que há uma base cultural forte para o desporto, pelo que é necessário passar de eventos isolados para um ecossistema de atividade física contínua, acessível e integrada nas rotinas dos poveiros.

Promover o desporto não se limita à oferta de horários ou atividades pontuais. Exige uma unidade capaz de garantir que as infraestruturas permanecem funcionais, com manutenção preventiva e disponibilização de recursos técnicos qualificados a longo prazo, e cuja referência desportiva do concelho se mantenha valorizada e reconhecida. A área do desporto exige planeamento, investimento e visão integrada, capaz de incentivar a prática regular do desporto, de forma sustentada.

Investir no desporto não é apenas um custo, é uma poupança a médio e longo prazo. Menos sedentarismo significa menos doença, menos isolamento social, maior sucesso educativo e, no final de contas, pessoas mais saudáveis e felizes. 
 
É imperioso colocar o tema do desporto em debate, e esse compromisso não pode, nem deve ficar em pausa.

Gabriel Ferreira, Licenciado em Educação Física e Desporto

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